Existe uma dor que pouca gente entende. Uma sensação de caminhar constantemente sobre o fio de uma navalha, onde um passo em falso pode levar a um abismo de sentimentos. De um lado, o amor mais intenso que se pode imaginar; do outro, um ódio que corrói. Num momento, a euforia de um novo começo; no outro, o vazio de um fim que parece definitivo. Para quem vive com o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), essa não é uma metáfora. É a realidade de quase todos os dias.
Para lançar luz sobre esse universo tão complexo e tantas vezes mal interpretado, conversei com o Dr. Bruno Oliveira de Paulo (CRM 76733 | RQE 57735), um psiquiatra de Uberlândia que se destaca por uma escuta que vai além dos manuais: uma escuta que acolhe. E é a partir dessa conversa que tentaremos entender não apenas o que é o Borderline, mas como é sentir o Borderline.
“Imagine nascer com a pele emocional em carne viva”, começa Dr. Bruno, de forma quase poética. “Onde uma brisa leve para os outros é, para você, uma ventania. Onde um toque é sentido com uma intensidade avassaladora. É a partir dessa sensibilidade extrema que tudo começa a se desenrolar.”
A Montanha-Russa dos Sentimentos
A característica mais visível para quem está de fora é a instabilidade das emoções. Mas não é como a do transtorno bipolar, com suas fases longas e bem definidas. No Borderline, a gangorra emocional sobe e desce em questão de horas, às vezes minutos. Um comentário mal interpretado, um olhar diferente, um plano cancelado… gatilhos que para a maioria seriam pequenos percalços, aqui podem deflagrar uma crise.
“Não é ‘drama’ ou ‘querer chamar a atenção'”, pontua Dr. Bruno. “A dor sentida é genuína e, na percepção da pessoa, proporcional ao gatilho. É uma reatividade emocional extrema. O cérebro, especialmente as áreas que funcionam como o nosso ‘freio’ emocional, como o córtex pré-frontal, parece funcionar de um modo diferente, enquanto a amígdala, nosso ‘alarme’ de perigo, é hiperativa.”
O Medo Devastador de Ficar Sozinho
Se há um medo que assombra quem vive com TPB, é o do abandono. Um medo tão visceral que a pessoa pode fazer esforços quase sobre-humanos para evitá-lo. Isso explica as relações tão intensas e, por vezes, caóticas. Há uma entrega total, uma idealização do outro como um salvador, a única pessoa capaz de preencher aquele sentimento de vazio.
Mas, ao menor sinal de afastamento — real ou, muitas vezes, apenas imaginado —, o pedestal desmorona. Aquele que era perfeito se torna o pior dos vilões. “É um mecanismo de proteção, ainda que disfuncional”, explica o psiquiatra. “A pessoa pensa: ‘vou te deixar antes que você me deixe’. ‘Vou te odiar para que não doa tanto quando você se for’. É uma tentativa desesperada de controlar uma dor que parece incontrolável.”
“Quem Sou Eu?”: A Batalha com o Espelho
Talvez a luta mais íntima e silenciosa seja a da identidade. A pessoa com Borderline muitas vezes se sente como um camaleão, mas de uma forma angustiante. Ela pode mudar de gostos, de planos de carreira, de valores e até de grupo de amigos de forma abrupta, como se estivesse tentando encontrar uma “pele” que sirva.
“É a sensação de não ter um ‘eu’ sólido. A identidade é fragmentada, depende muito de com quem a pessoa está se relacionando naquele momento”, diz Dr. Bruno. “E no fundo disso tudo, há uma queixa quase universal no consultório: um sentimento crônico de vazio. Um buraco na alma que nada parece preencher. Isso leva, muitas vezes, a comportamentos impulsivos — compras, comida, sexo, substâncias — numa tentativa de ‘sentir algo’ que aplaque aquele nada.”
De Onde Vem Tanta Dor?
Não há uma resposta simples. Não se trata de culpar os pais ou uma única causa. A ciência hoje, como explica Dr. Bruno, entende que é uma tempestade perfeita. Nasce-se com aquela “pele emocional” mais sensível, uma predisposição biológica. E essa semente da sensibilidade, muitas vezes, cai em um solo que não sabe como cultivá-la.
É o que se chama de “ambiente invalidante”. Uma família que, mesmo com a melhor das intenções, não sabe acolher aquela emoção intensa da criança. Frases como “pare de chorar por essa bobagem” ou “você está exagerando” ensinam, sem querer, uma lição terrível: “o que eu sinto é errado”. A criança não aprende a nomear, a entender e a regular suas emoções. Ela aprende a desconfiar de si mesma. E essa desconexão é a raiz de grande parte do caos adulto.
Mas, e a Esperança? Existe um Caminho?
Essa é a parte mais importante da conversa. “Sim, existe. E é um caminho de muita esperança”, afirma Dr. Bruno, com convicção. “O Transtorno Borderline tem um prognóstico muito melhor do que se imaginava há alguns anos. As pessoas melhoram. Elas aprendem a construir uma vida que vale a pena ser vivida.”
O tratamento é um trabalho de reconstrução. A psicoterapia é a viga mestra, especialmente abordagens como a Terapia Comportamental Dialética (DBT), criada justamente para isso. Ela ensina as habilidades que não foram aprendidas na infância: como tolerar o mal-estar, como regular as emoções, como se relacionar de forma mais saudável. Os medicamentos entram como um andaime, ajudando a estabilizar o humor e a controlar a impulsividade, para que a pessoa consiga aproveitar a terapia.
A jornada é longa. Exige coragem do paciente e apoio da família, que também precisa aprender a lidar com a situação. Mas, aos poucos, o fio da navalha vai se tornando um caminho mais largo, mais seguro. A pessoa aprende que pode sentir as ondas de emoção sem ser afogada por elas. Ela aprende que pode ficar sozinha sem se sentir abandonada. E, o mais importante, ela finalmente começa a construir uma resposta para aquela pergunta no espelho. Uma resposta que, pela primeira vez, é sua de verdade.
Esclarecendo as Dúvidas Mais Comuns
Após essa imersão, algumas questões práticas costumam surgir. O Dr. Bruno Oliveira nos ajuda a esclarecê-las.
1. A medicação vicia ou muda a personalidade da pessoa?
Dr. Bruno: “De forma alguma. É um medo comum, mas infundado. Os medicamentos usados, como os estabilizadores de humor, não causam dependência nem ‘dopam’ o paciente. Eles funcionam como o andaime que mencionei: seu objetivo é diminuir a intensidade do caos emocional, reduzir a impulsividade e ‘baixar a febre’ da reatividade. Isso não muda a personalidade de ninguém; pelo contrário, permite que a verdadeira personalidade, soterrada pela dor, possa emergir e se desenvolver de forma mais saudável com a ajuda da psicoterapia.”
2. Qual o papel de quem ama alguém com Borderline? Como ajudar sem se anular?
Dr. Bruno: “Essa é a pergunta de ouro. O primeiro passo para a família e os parceiros é a psicoeducação: entender o que é o transtorno. Isso gera empatia e reduz o julgamento. O segundo é aprender a validar os sentimentos da pessoa (‘eu entendo que isso te causou uma dor imensa’) sem necessariamente validar o comportamento disfuncional (‘mas gritar ou se machucar não é a solução’). E, crucialmente, é preciso estabelecer limites saudáveis. Ajudar não significa ser um saco de pancadas emocional. Cuidar de si mesmo, e talvez até buscar terapia, é fundamental para não adoecer junto e poder oferecer um suporte genuíno e constante.”
3. Se a pessoa melhora, ela está “curada”? O transtorno pode voltar?
Dr. Bruno: “Eu prefiro usar o termo ‘remissão dos sintomas’. Sim, uma pessoa pode chegar a um ponto em que não preenche mais os critérios para o diagnóstico. Ela aprendeu as habilidades de regulação e construiu uma vida estável. Isso significa que a sensibilidade emocional de base, a tal ‘pele em carne viva’, desapareceu? Provavelmente não. Mas a pessoa agora tem uma ‘caixa de ferramentas’ completa para lidar com essa sensibilidade. Em momentos de grande estresse na vida, a vulnerabilidade pode reaparecer, mas a diferença é que agora ela sabe o que fazer, sabe como usar suas ferramentas e pedir ajuda antes de cair no abismo.”
4. Como diferenciar a instabilidade do Borderline do Transtorno Bipolar?
Dr. Bruno: “A principal diferença está no ‘tempo’ e no ‘gatilho’. No Transtorno Bipolar, as oscilações de humor são episódios mais longos e menos reativos. Uma fase de depressão ou de euforia (mania/hipomania) dura semanas, até meses, e tem uma vida própria, independente dos acontecimentos do dia. No Borderline, a instabilidade é um ‘mar tempestuoso’. As ondas de emoção sobem e descem muito rápido, em horas, e são quase sempre uma reação a algo que aconteceu no campo dos relacionamentos. É uma instabilidade reativa, enquanto a do bipolar é mais endógena, episódica.”
Conclusão: Para Além do Fio da Navalha
Entender o Transtorno de Personalidade Borderline é, em essência, um exercício de profunda empatia. É reconhecer que por trás de comportamentos que podem parecer caóticos ou manipuladores, existe uma dor real e uma luta incessante para encontrar equilíbrio em um mundo sentido com uma intensidade desconcertante. A jornada para fora do fio da navalha não é sobre apagar a sensibilidade, mas sobre aprender a caminhar com ela. Não se trata de deixar de sentir, mas de aprender que os sentimentos, mesmo os mais avassaladores, são como nuvens: eles chegam, se manifestam e, com as ferramentas certas, podem seguir seu curso sem precisar destruir a paisagem. O diagnóstico não é um ponto final, mas sim o ponto de partida para um caminho de autoconhecimento e reconstrução que, embora desafiador, é plenamente possível e imensamente libertador.
