Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

Na era do Tiktok, o diagnóstico vem antes da consulta

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Como funciona uma Terapia-Psiquiatra Uberlandia

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O número de diagnósticos de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) em adultos nunca foi tão alto no Brasil. De 2020 a 2024, a procura por especialistas disparou — e com ela, a sensação generalizada de que “todo mundo tem TDAH agora”. Parte disso é verdade: sim, há um aumento real na identificação de casos antes invisibilizados, especialmente entre mulheres e adultos com histórico de sofrimento silencioso. Mas parte vem de outro fenômeno: o impacto das redes sociais na saúde mental.

Hoje, é comum que o primeiro contato com o transtorno aconteça não numa consulta médica, mas em um vídeo de 15 segundos no TikTok. Nele, alguém diz: “Se você se identifica com esses cinco sinais, talvez tenha TDAH”. E pronto — a pulga fica atrás da orelha. Ou pior: muita gente já pula direto para o autodiagnóstico.

“O problema não é o conteúdo em si, mas o que as pessoas fazem com ele. Há muita gente sofrendo de verdade e se reconhecendo nos vídeos. Mas também há exagero, distorção e até oportunismo”, afirma o psiquiatra Dr. Bruno Oliveira, especialista em saúde mental do adulto.

Quando o algoritmo vira consultório

Ao curtir um vídeo sobre saúde mental, o algoritmo entende que você quer mais do mesmo. Em pouco tempo, o feed se transforma em uma maratona de vídeos com checklists de sintomas, depoimentos emocionados e dicas de “como organizar sua rotina com TDAH”.

“Eu via muito conteúdo assim. Achei que era só desorganização minha, mas fui percebendo que tinha algo maior por trás”, conta Andréia, 31 anos, professora, que descobriu o TDAH após ver um vídeo no Instagram. “Foi um alívio, mas também uma confusão. Porque parecia que tudo que eu sentia era TDAH. E aí eu não sabia mais o que era meu e o que era o transtorno.”

Esse limbo entre identificação e confusão é mais comum do que se imagina. O Dr. Bruno Oliveira explica:

“Todos nós temos momentos de distração, impulsividade, esquecimentos. O que caracteriza o TDAH é a persistência e o prejuízo que isso causa em várias áreas da vida. Não é uma questão de se encaixar num vídeo. É uma investigação clínica.”

Diagnóstico virou tendência?

A psiquiatria moderna sempre enfrentou um dilema: tornar os transtornos mais conhecidos sem banalizá-los. Mas nas redes, esse equilíbrio desaparece rápido. É o que especialistas chamam de “psiquiatria pop”: o conteúdo chega de forma acessível, visualmente atrativa e emocionalmente identificável. Mas, muitas vezes, superficial.

“Teve gente que chegou no consultório dizendo: ‘Doutor, eu vi no TikTok que tenho TDAH. Só preciso da receita’. Aí eu paro e explico: não é assim que funciona. Diagnóstico não é um carimbo, é um processo”, relata Dr. Bruno.

Segundo ele, esse tipo de busca apressada não é só um erro clínico — é perigoso.
“Alguns pacientes já chegam automedicados. Compraram estimulantes na internet, tomaram sem prescrição. Isso pode agravar outros quadros psiquiátricos ou gerar efeitos colaterais sérios.”

O outro lado: quem nunca foi ouvido

Mas há também o outro lado da história. Para muita gente, especialmente mulheres, a internet tem sido um canal de escuta e validação. “A gente cresceu ouvindo que era distraída, estabanada, preguiçosa. Quando vi aqueles vídeos, chorei. Porque era a primeira vez que eu me via com empatia”, conta Larissa, 38 anos, que foi diagnosticada com TDAH aos 36, depois de procurar uma psiquiatra por causa de um vídeo no Instagram.

Dr. Bruno vê isso com cautela, mas também com compreensão:

“A popularização tem méritos. Muita gente passou a vida sofrendo sem saber por quê. E agora tem acesso à informação. O problema é quando essa informação vem sem filtro, sem profundidade. Aí o risco de erro é grande.”

Do autodiagnóstico ao diagnóstico real

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 5% da população adulta pode ter TDAH, mas a maioria ainda não é diagnosticada. Nos últimos três anos, no entanto, clínicas relatam aumento de até 70% na procura por avaliação neuropsiquiátrica em adultos.

Isso não significa que estamos vivendo uma “epidemia de TDAH”, como alguns sugerem. O que existe, segundo os especialistas, é uma correção histórica: pacientes antes negligenciados agora têm nome para o que sentem.

Mas esse nome precisa vir acompanhado de cuidado, e não de uma avalanche de vídeos com frases prontas.

“O diagnóstico de TDAH pode transformar vidas. Mas só quando feito com critério. Porque, senão, vira apenas mais um rótulo — e mais um motivo para frustração”, finaliza Dr. Bruno Oliveira.

Referências clínicas

  • American Psychiatric AssociationDSM-5: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders
  • Organização Mundial da SaúdeCID-11: Classificação Internacional de Doenças
  • Sociedade Brasileira de Psiquiatria – Diretrizes clínicas para TDAH em adultos (2022)
  • National Institute of Mental Health (EUA) – Informações sobre diagnóstico e tratamento
  • The Guardian – “Why TikTok made everyone think they have ADHD”, reportagem de 2023

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Doutor Bruno Oliveira

Me chamo Bruno Oliveira Paulo, sou médico Psiquiatra, e me formei em Medicina na UFU , tendo completado minha residência em Psiquiatria no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. Agradeço sua leitura. CRM 76733 | RQE 57735