Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

TDAH e hiperatividade: diagnóstico sério ou modismo da vez?

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A sigla é cada vez mais conhecida, os diagnósticos não param de crescer e os debates fervem em consultórios, escolas e redes sociais. O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) se tornou um tema recorrente — e, para muitos, uma espécie de etiqueta fácil para comportamentos que antes eram considerados apenas “parte da infância”.

O aumento nos diagnósticos acendeu um alerta entre profissionais da saúde. Afinal, estamos diante de um avanço no reconhecimento de um transtorno legítimo? Ou de uma tendência perigosa de superdiagnóstico e medicalização precoce?

O psiquiatra infantil Dr. Bruno Oliveira, com quase duas décadas de atuação clínica, vem observando essa curva com atenção — e preocupação. Para ele, o problema não está no diagnóstico em si, mas na forma como ele vem sendo tratado: muitas vezes às pressas, sem profundidade, e guiado mais por ansiedade social do que por critérios técnicos.

De negligenciado a superdiagnosticado

“Em 2004, quando eu ainda era residente, o diagnóstico de TDAH era um tabu”, relembra Dr. Bruno. “A criança precisava estar completamente fora do padrão escolar pra alguém cogitar que pudesse ser algo clínico. Tudo era visto como falta de limite ou problema de criação.”

Hoje, o pêndulo virou. Se uma criança de 7 anos não presta atenção por 40 minutos numa aula pouco envolvente, surgem suspeitas imediatas de TDAH. “Estamos indo de um extremo ao outro. Antes havia silêncio, agora tem um falatório — nem sempre embasado”, afirma o médico.

Segundo ele, o crescimento dos diagnósticos pode, sim, refletir uma melhora no reconhecimento do transtorno. Mas também revela um excesso de zelo que, na prática, vira pressa — e pressa, nesse campo, costuma custar caro.

A escola, os pais e os palpites

Um dos pontos mais críticos, na visão de Dr. Bruno, é o papel atribuído às escolas. “Já atendi inúmeros casos em que professores sugeriram, diretamente aos pais, um diagnóstico médico. Isso ultrapassa o limite da colaboração e vira interferência.”

A escola deve ser parceira, sim. Mas a avaliação clínica exige escuta qualificada, tempo e contexto familiar. “Não dá pra decidir nada em 15 minutos de conversa entre boletins e reclamações de comportamento”, reforça.

Ele destaca que o TDAH não se resume a agitação ou distração momentânea. “É um padrão persistente de desatenção, impulsividade, hiperatividade e sofrimento funcional. Reduzir isso a ‘não consegue ficar quieto’ é ignorar a complexidade do transtorno.”

Indústria, redes sociais e o ruído no diagnóstico

Outro ingrediente da confusão é o mercado — de ambos os lados. Dr. Bruno cita desde os cursos e terapias milagrosas que prometem curas sem embasamento, até a banalização da prescrição de medicamentos. “O metilfenidato virou quase um atalho. E o que mais me preocupa: muitas vezes usado sem diagnóstico definitivo.”

E as redes sociais só complicaram o quadro.

“Vejo adultos chegando ao consultório dizendo que têm certeza que têm TDAH porque viram um vídeo no TikTok. A pessoa se identifica com dois sintomas genéricos e já se autodiagnostica. Isso banaliza a condição e prejudica quem realmente precisa de ajuda.”

Ele alerta que o diagnóstico exige metodologia: entrevistas estruturadas, escalas clínicas, análise do histórico e exclusão de outros transtornos, como ansiedade ou depressão. “Não é checklist de Instagram nem impressão de grupo de WhatsApp. Isso é saúde mental.”

E as crianças no meio disso tudo?

No meio desse cenário, as crianças ficam no fogo cruzado.

De um lado, pais pressionados, sem suporte. Do outro, escolas despreparadas e profissionais sobrecarregados. No centro, uma criança de 6 ou 7 anos que só queria correr no recreio — e agora toma um comprimido todo dia porque “não para quieta”.

Dr. Bruno conta sobre um caso recente que o marcou. “O pai me disse: ‘Ele está mais calmo, mas parece triste’. Aquilo me atingiu. Porque o objetivo do tratamento nunca pode ser apagar a criança. É ajudá-la a funcionar melhor, sem perder a espontaneidade.”

Para o psiquiatra, o problema não está no uso do medicamento em si, mas na falta de critério. “Quando bem indicado, o tratamento é transformador. Mas ele não pode ser usado pra silenciar a infância.”

Diagnóstico não é desculpa. E nem sentença.

Dr. Bruno é firme ao dizer que o diagnóstico de TDAH não pode ser nem um rótulo facilitador, nem uma sentença vitalícia. “Tem criança que se acomoda ao diagnóstico. Tem escola que empurra responsabilidade. E tem médico que entrega o laudo sem aprofundar. Nenhuma dessas atitudes é aceitável.”

Ele reforça que o transtorno é real, grave e afeta muitas famílias. Mas precisa ser tratado com responsabilidade. “O modismo deslegitima os casos verdadeiros. E a negação só atrasa o tratamento de quem precisa.”

Responsabilidade: o caminho do meio

Dr. Bruno defende uma postura mais crítica e mais humana.

“Nem tudo é TDAH. Mas também não podemos ignorar os sinais. A medicina exige escuta. E escuta dá trabalho. Não tem aplicativo que substitua isso.”

Na clínica, ele diz que o maior desafio é sustentar a dúvida. “Dizer ‘ainda não sei’. Esperar, observar, entender o contexto. Às vezes, o que a criança precisa é de estrutura, de rotina, de atenção de verdade — não de uma receita na primeira consulta.”

No fim das contas, entre o modismo e a negação, existe um caminho mais difícil, mas mais justo: o da responsabilidade clínica e social. Um caminho que exige tempo, empatia e, acima de tudo, compromisso com o bem-estar da criança — e não com a pressa dos adultos.

“Quando a gente acerta o diagnóstico, com cuidado e critério, o resultado aparece”, conclui Dr. Bruno. “A criança floresce. E volta a ser ela mesma — com ou sem rótulo.”

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Doutor Bruno Oliveira

Me chamo Bruno Oliveira Paulo, sou médico Psiquiatra, e me formei em Medicina na UFU , tendo completado minha residência em Psiquiatria no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. Agradeço sua leitura. CRM 76733 | RQE 57735