Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

Transtornos Alimentares: Quando a Comida Vira Inimiga

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Depressão Pós-Parto: O Lado Silencioso da Maternidade

A primeira vez que Júlia olhou no espelho e se viu “gorda” tinha apenas 14 anos. Pesava 52 quilos, media 1,65m, mas na sua percepção estava “enorme”. Começou cortando o pão do café da manhã. Depois foi o almoço. Em seis meses, havia perdido 15 quilos e conquistado elogios de todo mundo. “Nossa, como você emagreceu! Tá linda!” Era exatamente o que queria ouvir. O problema é que nunca foi suficiente.

Hoje, aos 28 anos, Júlia está em recuperação da anorexia nervosa há três anos. Sua história espelha a de milhares de brasileiros que desenvolvem algum tipo de transtorno alimentar – um grupo de condições que vai muito além da simples “falta de força de vontade” ou “vaidade excessiva”.

O Que São os Transtornos Alimentares?

Os transtornos alimentares são condições psiquiátricas sérias que afetam a relação da pessoa com a comida, o peso e a imagem corporal. Não é frescura, não é fase, não é escolha. É doença mental com consequências físicas graves, que pode ser fatal se não tratada adequadamente.

Segundo dados do Programa de Orientação e Atendimento a Pacientes com Transtornos Alimentares (PROATA) da UNIFESP, cerca de 4,7% dos brasileiros já apresentaram algum transtorno alimentar ao longo da vida. E os números só crescem, especialmente entre adolescentes e jovens adultos.

“O que mais me preocupa é que estamos vendo casos cada vez mais precoces”, comenta Dra. Freitas, que atende pacientes com transtornos alimentares há 15 anos. “Crianças de 10, 11 anos já chegam no consultório com comportamentos restritivos sérios.”

Os Principais Tipos

A anorexia nervosa é talvez o mais conhecido, mas não é o único. Caracteriza-se pela restrição alimentar severa, medo intenso de ganhar peso e distorção da imagem corporal. Quem tem anorexia se vê gordo mesmo estando abaixo do peso normal.

A bulimia nervosa envolve episódios de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios como vômitos, uso de laxantes ou exercícios excessivos. “É mais difícil de detectar porque a pessoa geralmente mantém peso normal”, explica a nutricionista comportamental Dra. Ana Beatriz Rocha, que trabalha em equipe multidisciplinar.

O transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP) é caracterizado por episódios recorrentes de compulsão sem comportamentos compensatórios. É o transtorno alimentar mais comum, afetando cerca de 2% da população brasileira segundo o Instituto de Psiquiatria da USP.

Existe também a ortorexia – obsessão por comida “saudável” –, que ainda não está oficialmente classificada, mas vem ganhando atenção dos especialistas. “Vejo muito paciente que começa querendo comer melhor e acaba desenvolvendo uma relação extremamente rígida com a alimentação”, observa Dra. Rocha.

Muito Além da Aparência

O grande equívoco é achar que transtorno alimentar é só questão de vaidade. “É muito mais complexo”, enfatiza Dra. Freitas. “Geralmente há questões emocionais profundas por trás: perfeccionismo, baixa autoestima, necessidade de controle, traumas…”

Rafael, de 23 anos, desenvolveu bulimia após um período de bullying na adolescência. “Comecei a comer compulsivamente quando estava ansioso ou triste. Depois vinha a culpa e eu provocava vômito. Virou um ciclo vicioso que durou anos.”

O estudante conta que escondia o problema de todo mundo. “Bulimia é mais fácil de esconder que anorexia. Eu mantinha peso normal, então ninguém suspeitava. Mas por dentro estava destruído.”

As redes sociais têm papel importante no desenvolvimento desses transtornos. A pressão por um corpo “perfeito”, os filtros que distorcem a realidade, as dietas da moda… tudo contribui para uma relação cada vez mais conturbada com a comida e o corpo.

Sinais de Alerta

Como identificar quando a preocupação com alimentação e peso saiu do normal? Alguns sinais merecem atenção: mudanças drásticas nos hábitos alimentares, obsessão por calorias e peso, isolamento social durante refeições, exercícios compulsivos, mudanças de humor relacionadas à comida.

“Quando a alimentação passa a controlar a vida da pessoa, é hora de buscar ajuda”, alerta Dra. Freitas. “Se ela não consegue mais sair pra jantar com amigos, se cancela compromissos por causa da comida, se o humor depende do que comeu ou deixou de comer…”

Marina, mãe de Sofia de 16 anos, percebeu que algo estava errado quando a filha começou a contar obsessivamente as calorias de tudo. “Ela tinha uma planilha no celular com cada alimento. Parou de comer com a família, dizia que já tinha comido. Emagreceeu muito rápido.”

Hoje Sofia está em tratamento há um ano. “No início foi difícil aceitar que precisava de ajuda. Achava que todo mundo estava exagerando, que eu só queria ser saudável”, conta a adolescente.

As Consequências Físicas

Os transtornos alimentares não afetam apenas o peso. As consequências físicas podem ser devastadoras: problemas cardíacos, osteoporose precoce, alterações hormonais, problemas dentários, queda de cabelo, alterações na pele, problemas gastrointestinais…

“Na anorexia, o corpo literalmente consome a si mesmo”, explica Dra. Freitas. “O organismo entra em modo de sobrevivência, diminuindo o metabolismo e comprometendo funções vitais.”

Dados do Ministério da Saúde mostram que a anorexia nervosa tem a maior taxa de mortalidade entre todos os transtornos psiquiátricos – cerca de 10% dos casos evoluem para óbito, principalmente por complicações cardíacias ou suicídio.

O Tratamento é Possível

Apesar da gravidade, transtornos alimentares têm tratamento. O ideal é uma abordagem multidisciplinar envolvendo psiquiatra, psicólogo, nutricionista e, quando necessário, outros especialistas.

“O primeiro passo é sempre a estabilização clínica”, explica Dra. Freitas. “Em casos graves, pode ser necessária internação. Depois trabalhamos a parte psicológica e comportamental.”

A terapia cognitivo-comportamental mostra bons resultados, ajudando a identificar e modificar pensamentos distorcidos sobre comida, peso e imagem corporal. A terapia familiar também é fundamental, especialmente em adolescentes.

“A família precisa entender que não é culpa dela, mas também que tem papel importante na recuperação”, comenta a psicóloga Dra. Carla Mendes, especialista em terapia familiar.

O Papel da Família

O apoio familiar é crucial no tratamento. Mas nem sempre a família sabe como ajudar. “Muitos pais ficam desesperados e acabam fazendo mais mal que bem”, observa Dra. Mendes. “Forçar a comer, fazer chantagem emocional, brigar… isso só piora.”

Marina aprendeu isso na terapia familiar. “No começo eu brigava muito com a Sofia, achava que ela estava fazendo birra. Depois entendi que ela realmente não conseguia comer, não era escolha.”

A mãe conta que teve que reaprender a se relacionar com a filha. “Parei de falar sobre peso e comida o tempo todo. Comecei a focar em outras coisas: como ela estava se sentindo, os planos dela, os sonhos…”

Prevenção e Conscientização

Prevenir transtornos alimentares passa por educação sobre alimentação saudável sem obsessão, promoção de autoestima baseada em características além da aparência, e conscientização sobre os perigos das dietas restritivas.

“Precisamos parar de elogiar emagrecimento sem contexto”, alerta Dra. Freitas. “Quando alguém emagrece muito rápido, em vez de elogiar, pergunte se está tudo bem.”

As escolas têm papel importante na prevenção. Programas de educação nutricional, discussões sobre diversidade corporal e campanhas contra o bullying fazem diferença.

Um Caminho de Volta

A recuperação de um transtorno alimentar não é linear. Tem recaídas, tem dias difíceis, tem pequenas vitórias que parecem enormes. Júlia resume bem: “Hoje posso dizer que tenho uma relação normal com a comida, mas foi um caminho longo. Aprendi que saúde não é só peso, é bem-estar físico e mental.”

Rafael também celebra sua recuperação: “Voltei a sair com amigos, a comer pizza sem culpa, a viver sem medo da comida. Demorei pra entender, mas pedir ajuda foi a melhor decisão que tomei.”

Os transtornos alimentares são sérios, mas não são sentença. Com tratamento adequado, apoio familiar e acompanhamento profissional, é possível reconstruir uma relação saudável com a comida e com o próprio corpo. O importante é não enfrentar sozinho – existe ajuda, existe esperança, existe vida após o transtorno alimentar.

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Doutor Bruno Oliveira

Me chamo Bruno Oliveira Paulo, sou médico Psiquiatra, e me formei em Medicina na UFU , tendo completado minha residência em Psiquiatria no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. Agradeço sua leitura. CRM 76733 | RQE 57735