Era uma quinta-feira comum quando Marina, de 34 anos, sentiu o mundo desabar. No meio do metrô, voltando do trabalho, o coração disparou sem aviso. As mãos suaram frio, a respiração ficou curta e uma sensação de morte iminente tomou conta. “Pensei que ia morrer ali mesmo”, conta a publicitária, que hoje sabe nomear o que viveu: uma crise de pânico.
A história de Marina se repete diariamente em consultórios pelo país. A síndrome do pânico, ou transtorno do pânico como é tecnicamente conhecido, afeta cerca de 2% da população brasileira segundo dados do Instituto de Psiquiatria da USP. Mas os números podem ser ainda maiores – muita gente sofre calada, sem entender direito o que acontece.
O Terror Sem Nome
O pânico não escolhe hora nem lugar pra aparecer. Pode ser no shopping, no elevador, numa reunião importante ou até em casa, vendo televisão. É assim mesmo: imprevisível e devastador. A crise dura poucos minutos – raramente passa de 20 –, mas quem passa por isso jura que foram horas eternas.
“O que mais impressiona é a intensidade dos sintomas físicos”, explica a psicóloga Dra. Fernanda Santos, especialista em terapia cognitivo-comportamental há mais de quinze anos. “O paciente chega ao pronto-socorro convencido de que está tendo um infarto. Os exames dão normais, e ele sai ainda mais confuso.”
Os sintomas são mesmo assustadores: palpitações, sudorese, tremores, sensação de sufocamento, dor no peito, náusea, tontura, formigamento nas extremidades. E por cima de tudo isso, um medo terrível de morrer, enlouquecer ou perder o controle. É muita coisa acontecendo de uma vez só.
Carlos, engenheiro de 41 anos, descreve sua primeira crise como “um tsunami interno”. “Foi numa apresentação no trabalho. Do nada, comecei a suar, o coração acelerou absurdamente e tive certeza de que ia desmaiar na frente de todo mundo. Saí correndo da sala e fiquei uns dez minutos no banheiro tentando me acalmar.”
A Armadilha do Medo do Medo
Aqui mora o grande problema da síndrome do pânico: depois da primeira crise, instala-se o que chamamos de “ansiedade antecipatória”. A pessoa fica com medo de ter medo, evitando situações que possam desencadear nova crise. É quando a vida começa a encolher.
Marina conta que parou de usar transporte público por dois anos. “Só andava de carro, e mesmo assim com o ar-condicionado no máximo e sempre com uma garrafa d’água na mão.” Desenvolveu o que os especialistas chamam de comportamentos de segurança – pequenos rituais que a pessoa acredita que vão impedir nova crise.
Segundo dados da Associação Brasileira de Psiquiatria, cerca de 30% das pessoas com transtorno do pânico desenvolvem agorafobia – o medo de lugares ou situações das quais seria difícil escapar caso uma crise aconteça. Shopping centers, elevadores, trânsito, multidões… a lista de “locais proibidos” vai crescendo.
Por Que Comigo?
A pergunta que todo paciente faz. A resposta não é simples porque as causas são múltiplas. Existe sim um componente genético – quem tem parentes com transtornos de ansiedade tem maior probabilidade de desenvolver o problema. Mas não é só isso.
Estresse crônico, traumas, uso de substâncias, mudanças hormonais significativas… tudo pode ser gatilho. “Vejo muito paciente que desenvolve o primeiro episódio após períodos de muito estresse no trabalho ou perdas importantes”, observa Dr. Martins, que atende em consultório há 20 anos.
As mulheres são mais afetadas – a proporção é de duas pra cada homem. Isso tem a ver com questões hormonais, principalmente durante períodos de alteração como gravidez, pós-parto e menopausa. Mas também com questões sociais: ainda somos nós que carregamos mais responsabilidades e pressões no dia a dia.
O Cérebro em Alerta Máximo
Do ponto de vista neurobiológico, o que acontece numa crise de pânico é uma “falha” no sistema de alarme do cérebro. A amígdala, estrutura responsável por detectar perigos, dispara sem motivo aparente, ativando todo o sistema de luta ou fuga.
É como se o corpo se preparasse pra enfrentar um leão quando na verdade tá tudo tranquilo. O coração acelera pra bombear mais sangue pros músculos, a respiração fica ofegante pra captar mais oxigênio, a sudorese aumenta pra resfriar o corpo… Tudo muito útil numa situação de perigo real, mas completamente inadequado numa fila de banco.
Existe Saída?
A boa notícia é que síndrome do pânico tem tratamento. E muito eficaz, diga-se de passagem. A combinação de psicoterapia cognitivo-comportamental com medicação, quando necessária, apresenta taxas de melhora superiores a 80% segundo estudos internacionais.
“O primeiro passo é a psicoeducação”, explica Dra. Santos. “Quando o paciente entende o que tá acontecendo com ele, já diminui muito a angústia. Não é loucura, não é falta de caráter, é um transtorno que tem nome e sobrenome.”
Na terapia, aprende-se a identificar os pensamentos catastróficos que alimentam o pânico e a desenvolver estratégias de enfrentamento. Técnicas de respiração, relaxamento muscular progressivo e exposição gradual aos medos fazem parte do arsenal terapêutico.
Marina, hoje, volta a andar de metrô. “Não vou mentir, ainda tenho um friozinho na barriga às vezes, mas aprendi que é normal. A diferença é que agora sei que posso lidar com isso.”
Prevenção e Autocuidado
Embora não seja possível prevenir completamente o transtorno do pânico, algumas práticas ajudam a diminuir a vulnerabilidade. Exercícios físicos regulares são fundamentais – liberam endorfinas e ajudam a regular o sistema nervoso. Técnicas de meditação e mindfulness também mostram eficácia.
Evitar excesso de cafeína, álcool e cigarro faz diferença. Manter rotina de sono adequada idem. “Parece básico, mas é impressionante como a higiene do sono influencia na ansiedade”, comenta Dr. Martins.
O apoio social é outro fator protetor importante. Conversar sobre o problema, participar de grupos de apoio, manter vínculos afetivos saudáveis… tudo conta na hora de enfrentar as crises.
Um Novo Olhar
A síndrome do pânico ainda carrega estigma na nossa sociedade. Muita gente acha que é “frescura” ou “falta do que fazer”. Mas quem passa por isso sabe: não é escolha, é sofrimento real e limitante.
“O mais importante é buscar ajuda profissional”, enfatiza Dra. Santos. “Ninguém precisa sofrer sozinho. Existe tratamento, existe esperança.”
Carlos resume bem sua experiência: “Hoje entendo que as crises foram um sinal de que eu precisava cuidar melhor de mim. Foi assustador, mas também foi um recomeço.”
A síndrome do pânico pode ser o susto que desperta pra necessidade de mudanças na vida. Com tratamento adequado e apoio, é possível não apenas controlar os sintomas, mas viver com mais qualidade e autoconhecimento. O medo pode ter ganhado algumas batalhas, mas a guerra ainda pode ser vencida.
