Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

Síndrome do Pânico: Quando a Ansiedade Se Torna Incontrolável

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Conteúdo

Imagine estar em um local familiar – talvez no supermercado ou dirigindo para o trabalho – quando, sem qualquer aviso, seu coração dispara. Suas mãos suam, a respiração fica ofegante, e surge uma sensação avassaladora de que algo terrível está prestes a acontecer. Minutos depois, os sintomas diminuem, mas o medo permanece.

Esta é a realidade de aproximadamente 3,8% da população brasileira que convive com o Transtorno de Pânico, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. Uma condição frequentemente incompreendida, mas que pode ser tratada com eficácia.

“Eu já tinha tido crises de ansiedade antes, mas nada se comparou àquele dia no shopping”, relata Marina, 34 anos. “De repente, senti como se estivesse tendo um infarto. Corri para o pronto-socorro, onde todos os exames deram normais. Foi só após a terceira crise em um mês que um médico sugeriu que poderia ser síndrome do pânico.”

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Síndrome do Pânico: Quando a Ansiedade Se Torna Incontrolável

O que caracteriza o Transtorno de Pânico?

O transtorno de pânico é caracterizado por ataques recorrentes e inesperados de medo intenso, acompanhados por pelo menos quatro dos seguintes sintomas:

  • Palpitações ou ritmo cardíaco acelerado
  • Sudorese e tremores
  • Sensação de falta de ar ou sufocamento
  • Dor ou desconforto no peito
  • Náusea ou desconforto abdominal
  • Tontura ou vertigem
  • Desrealização (sensações de irrealidade)
  • Medo de perder o controle ou de morrer

É importante esclarecer: ter um ataque isolado não significa ter transtorno de pânico. O diagnóstico acontece quando a pessoa passa a viver com medo constante de novos ataques e modifica seu comportamento em função desse temor.

“Após meu primeiro ataque, desenvolvi um medo constante de ter outro”, comenta Paulo, 42 anos. “Comecei a evitar lugares onde seria difícil sair rapidamente – cinemas, aviões, metrôs lotados. Meu mundo foi ficando cada vez menor.”

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O que causa o Transtorno de Pânico?

Não existe uma causa única para o transtorno de pânico, mas sim uma combinação de fatores:

Predisposição genética

Pesquisas mostram que pessoas com parentes de primeiro grau que sofrem do transtorno têm até quatro vezes mais chances de desenvolvê-lo.

Neurobiologia

Estudos de neuroimagem revelam alterações em áreas cerebrais relacionadas ao processamento do medo, particularmente a amígdala e o sistema límbico.

Fatores psicológicos

Certas características aumentam a vulnerabilidade:

  • Sensibilidade elevada às sensações corporais
  • Tendência a interpretar situações ambíguas de forma negativa
  • Intolerância à incerteza

Eventos estressores

Eventos significativos podem desencadear o primeiro ataque:

  • Perdas importantes
  • Mudanças de vida
  • Situações traumáticas
  • Estresse prolongado
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O Ciclo do Pânico

O transtorno se perpetua através de um ciclo que funciona assim:

  1. Uma sensação corporal comum ocorre (coração bate mais rápido após subir escadas)
  2. A pessoa interpreta esta sensação como perigosa (“estou tendo um ataque cardíaco”)
  3. Esta interpretação gera mais ansiedade
  4. A ansiedade aumentada produz mais sintomas físicos
  5. Os sintomas confirmam o medo inicial
  6. Um ataque completo se desenvolve

“Depois de ter um ataque no supermercado, desenvolvi um medo terrível de sentir meu coração acelerar”, descreve Renata, 29 anos. “Era um ciclo vicioso: o medo causava os sintomas que eu temia.”

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Quando o Pânico Limita Espaços: A Agorafobia

Em cerca de um terço dos casos, o transtorno evolui para agorafobia – o medo de estar em lugares dos quais seria difícil escapar caso ocorra um ataque. As pessoas passam a evitar:

  • Espaços abertos
  • Locais fechados
  • Transporte público
  • Multidões
  • Estar sozinhas fora de casa

“Antes do diagnóstico e tratamento, meu mundo tinha se reduzido a alguns quarteirões ao redor da minha casa”, conta Fernando, 45 anos. “A agorafobia é uma prisão invisível que construímos para nos proteger.”

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico envolve duas etapas essenciais:

1. Avaliação médica

Várias condições médicas podem mimetizar ataques de pânico:

  • Problemas cardíacos
  • Disfunções da tireoide
  • Distúrbios respiratórios
  • Efeitos de medicamentos

“É imprescindível uma avaliação clínica completa antes de confirmar o diagnóstico”, enfatiza o Dr. Eduardo Martins, cardiologista. “Já atendi pacientes convictos de que tinham síndrome do pânico quando, na verdade, apresentavam arritmias cardíacas.”

2. Avaliação em saúde mental

Após descartar causas orgânicas, um profissional de saúde mental realiza:

  • Entrevista clínica detalhada
  • Avaliação de histórico pessoal e familiar
  • Análise de fatores desencadeantes
  • Diagnóstico diferencial de outros transtornos
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Tratamentos que funcionam

A boa notícia é que o transtorno de pânico responde muito bem ao tratamento adequado:

Psicoterapia

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é considerada o tratamento psicológico de primeira linha, com taxas de eficácia de 70-90%. Inclui:

  • Educação sobre ansiedade e pânico
  • Modificação de pensamentos catastróficos
  • Exposição gradual às sensações temidas
  • Técnicas de relaxamento

“O componente mais poderoso da TCC para pânico é quebrar a associação entre sensações corporais e medo”, explica o Dr. Ricardo Nunes, psicoterapeuta. “Pacientes aprendem que sensações como taquicardia ou tontura, embora desconfortáveis, não são perigosas.”

Medicamentos

Os principais medicamentos utilizados são:

  • Antidepressivos (ISRSs como fluoxetina, sertralina, escitalopram): Considerados tratamento de primeira linha, geralmente levam algumas semanas para mostrar efeito completo.
  • Benzodiazepínicos (como alprazolam): Oferecem alívio rápido, mas devido ao potencial de dependência, são recomendados apenas para uso breve ou como adjuvantes no início do tratamento.

Abordagens complementares

  • Exercício físico regular: Estudos mostram que exercícios aeróbicos moderados reduzem significativamente os sintomas de ansiedade.
  • Técnicas de respiração: Práticas como respiração diafragmática e mindfulness ajudam a reduzir a hiperativação fisiológica.
  • Mudanças no estilo de vida: Redução de cafeína, melhoria do sono e manejo do estresse contribuem para diminuir a vulnerabilidade aos ataques.

“O exercício físico foi fundamental no meu tratamento”, afirma Luciana, 37 anos. “No início eu tinha medo de me exercitar porque a aceleração dos batimentos cardíacos me lembrava os ataques. Hoje corro três vezes por semana e isso melhorou muito minha ansiedade.”

O que fazer durante um ataque?

Algumas estratégias que podem ajudar:

  • Reconheça que é um ataque de pânico: Lembre-se que os sintomas, embora intensos, não são perigosos e passarão.
  • Respire controladamente: Inspire lentamente pelo nariz contando até 4, retenha por 1-2 segundos, expire pela boca contando até 6.
  • Use a técnica 5-4-3-2-1: Foque em 5 coisas que pode ver, 4 que pode tocar, 3 que pode ouvir, 2 que pode cheirar e 1 que pode saborear.
  • Repita afirmações calmantes: “Isto é temporário”, “Estou seguro”, “Isso já aconteceu antes e passou”.

Impacto na vida e relacionamentos

O transtorno de pânico afeta várias esferas da vida:

  • Profissional: Absenteísmo, limitações na carreira, dificuldade com novas responsabilidades.
  • Relacionamentos: Dependência de “pessoas seguras”, isolamento social, desafios na intimidade.
  • Financeiro: Custos diretos com tratamentos e indiretos relacionados à perda de oportunidades.
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Quebrando o estigma

Apesar dos avanços na compreensão dos transtornos mentais, mitos persistem:

  • “Ataques de pânico são apenas nervosismo exagerado”
  • “É só uma questão de força de vontade”
  • “Quem tem transtorno de pânico é fraco”

“O estigma ainda é um dos principais motivos pelos quais pessoas demoram para buscar ajuda”, observa o Dr. Vinícius Torres, psiquiatra. “Vemos pacientes que sofreram por anos antes de buscar tratamento, acreditando que deveriam ser ‘fortes o suficiente’ para superar sozinhos.”

Quando buscar ajuda

É recomendável procurar avaliação especializada se você:

  • Teve um ou mais ataques de pânico sem causa aparente
  • Alterou seu comportamento devido ao medo de novos ataques
  • Evita lugares ou situações por medo
  • Vive preocupado com a possibilidade de ter outro ataque

“Não espere o transtorno limitar significativamente sua vida para buscar ajuda”, aconselha a psicóloga Carla Duarte. “Quanto mais cedo iniciamos o tratamento, maiores as chances de recuperação completa.”

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Uma condição tratável

O transtorno de pânico, embora intensamente perturbador, tem prognóstico excelente quando adequadamente tratado. A maioria das pessoas consegue reduzir significativamente ou eliminar os ataques e retomar atividades que haviam abandonado.

“O pânico me ensinou muito sobre mim mesma”, reflete Eduarda, 39 anos, agora recuperada após tratamento. “Hoje, quando sinto ansiedade, sei que é apenas uma emoção passageira – não é quem eu sou, nem determina o que posso fazer.”

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Doutor Bruno Oliveira

Me chamo Bruno Oliveira Paulo, sou médico Psiquiatra, e me formei em Medicina na UFU , tendo completado minha residência em Psiquiatria no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. Agradeço sua leitura. CRM 76733 | RQE 57735