Lembro-me como se fosse ontem da primeira vez que entrei numa sala de aula inclusiva. Eu era recém-formado e, apesar de toda teoria dos livros, nada me preparou para o olhar curioso de Lucas, um menino de 8 anos no espectro autista. Aquele olhar mudou minha vida e minha carreira para sempre.
Depois de 18 anos trabalhando com pessoas autistas e suas famílias, algo ainda me incomoda profundamente: a quantidade de desinformação que circula sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). São mitos que não apenas dificultam o entendimento da sociedade, mas que machucam diariamente quem vive essa realidade.
Quero compartilhar com você o que aprendi ao longo desses anos, tanto nos consultórios quanto nos cafés com pais exaustos e nas conversas sinceras com adultos autistas que me ensinaram mais do que qualquer livro poderia. Vamos juntos desmontar essas falsas acreditamos que ainda persistem, mesmo em 2025.
Um Espectro de Possibilidades Humanas
Se existe algo que aprendi observando centenas de pessoas autistas é que quando você conhece uma pessoa autista… você conheceu apenas uma pessoa autista. Nunca duas iguais.
Mito 1: “Autistas são todos parecidos”
“Você trabalha com autismo? Então deve conhecer meu sobrinho! Ele faz aqueles movimentos repetitivos e é fascinado por trens.”
Ouço frases assim quase semanalmente. É como se existisse um “molde autista” universal, uma receita única. Na minha experiência, não existe nada mais distante da realidade.
Na semana passada, atendeu Mariana, uma adolescente de 14 anos, apaixonada pela biologia marinha, comunicativa e com dificuldades em lidar com mudanças de rotina. Horas depois, esteve com Felipe, 11 anos, que praticamente não fala, mas desenha de forma extraordinária e percebe detalhes que a maioria de nós jamais notaria.
“Cada dia é uma descoberta”, contou Cláudia, mãe de Henrique, agora com 17 anos. “Quando ele foi revelado aos 3, um médico teve a audácia de me dizer exatamente como seria sua vida. Hoje Henrique toca violão, tem dois amigos inseparáveis e uma memória que me impressiona diariamente. Ele segue sendo autista, com seus desafios diários, mas é uma pessoa única, não um diagnóstico ambulante.”
O cérebro autista processa o mundo de forma singular, é verdade. Mas essa singularidade se manifesta de tantas formas quanto existem pessoas autistas. Alguns são silenciosos, outros falam pelos cotovelos. Alguns evitam contato físico como se fossem dolorosos, outros buscam abraços apertados para se rir. A neurociência já compreende isso – agora precisamos que essa compreensão chegue à sociedade.
Mito 2: “Autismo precisa de cura”
Antônio tem 42 anos, é programador, casado e recebeu seu diagnóstico aos 39. Numa de nossas conversas, ele me fez uma pergunta que deveria nos fazer refletir: “Por que insistem em querer me recuperar? Não estou quebrado.”
O autismo não é uma doença que precisamos erradicar. É uma forma diferente de desenvolvimento neurológico que traz desafios, sim, mas também perspectivas únicas sobre o mundo. O que as pessoas autistas precisam não é de “cura”, mas de compreensão, apoios adequados e adaptações que permitam que floresçam.
“Passei anos tentando fazer meu filho se encaixar num mundo que não foi feito para ele”, desabafou Roberto, pai de Gustavo, durante um grupo de apoio. “O dia em que entendi que não era ele quem precisava mudar, mas o ambiente ao redor dele, tudo ficou mais leve. Para ele e para nossa família.”
A ciência hoje é clara: o autismo faz parte da diversidade neurológica humana natural. Nosso foco deve ser fornecer estratégias que melhorem a qualidade de vida, não em tentar transformar pessoas autistas em neurotípicas.
Mito 3: “Autistas não sentem emoções ou empatia”
Este mito me faz sorrir tristemente toda vez que o ouço, porque muitas vezes vem de pessoas que nunca viram um adolescente autista chorando ao perceber que seu amigo está triste, mesmo sem entender exatamente por quê.
Paula, uma jovem de 22 anos no espectro, me explicou da forma mais bela possível: “Sinto tudo, às vezes até demais. É como se alguém tivesse iniciado o volume das emoções e esquecido de mim dar o controle remoto. O difícil é isso mostrar da forma que os outros esperam.”
As pesquisas mais recentes sobre neurociência das emoções confirmam o que Paula expressou: muitas pessoas autistas sentem emoções intensamente, mas processam e expressam essas emoções de maneiras diferentes. Podem ter prejuízo em expressões faciais sutis ou entender certas convenções sociais, mas isso não significa ausência de emoções ou empatia.
“Minha filha Camila parece não reagir quando alguém está chorando”, contou Sandra durante uma sessão. “Mas se eu lhe explicar claramente que estou triste, ela é capaz de passar horas ao meu lado, silenciosamente, apenas segurando minha mão. Isso não é empatia?”
Diagnóstico e Compreensão: Desfazendo Confusões
Mito 4: “Vacinas causam autismo”
Como profissional da área, poucas coisas me angustiam tanto quanto ver este mito ainda circulando em grupos de pais. Ele nasceu de um estudo fraudulento publicado em 1998 e já completamente desmentido, mas que continua causando enormes danos.
Em meu consultório, já recebi famílias que se culpavam profundamente por terem vacinado seus filhos. Esse peso desnecessário é devastador. A ciência já realizou dezenas de estudos robustos envolvendo milhões de crianças que demonstram categoricamente: não há qualquer relação entre vacinas e autismo.
Alexandre, pai de duas irmãs idênticas onde apenas um é autista, coincidentemente: “Ambos receberam exatamente as mesmas vacinas, no mesmo dia. Um é autista, o outro não. Esta experiência pessoal, junto com toda a ciência que estudei depois, me mostrou como esse mito é prejudicial e infundado.”
O autismo tem forte base genética, com mais de uma centena de genes já identificados que podem contribuir para o desenvolvimento do TEA. Fatores ambientais também podem interagir com essa predisposição genética, mas as vacinas definitivamente não estão entre eles.
Mito 5: “Só crianças podem ser afetadas com autismo”
Tenho visto um fenômeno cada vez mais comum em minha prática: adultos que descobrem ser autistas após décadas de se sentirem “diferentes” sem entender o porquê.
Teresa recebeu seu diagnóstico aos 51 anos, depois que seu neto foi divulgado. Durante uma consulta, ela não conseguiu conter as lágrimas: “Passei a vida inteira me sentindo como uma tentativa de tentar imitar humanos. Achei que tinha algo fundamentalmente errado comigo. Saber que sou autista não apenas me deu respostas, me deu paz.”
Muitas pessoas, especialmente mulheres e pessoas com apresentações menos visíveis do autismo, passaram décadas sem diagnóstico. As meninas, em particular, frequentemente desenvolvem habilidades avançadas de camuflagem social, adaptando-se às expectativas mesmo que isso custe um esforço mental extraordinário e esgotamento constante.
“É como fazer teatro todos os dias da sua vida”, explicou-me Daniela, aos 34 anos. “Você memoriza os roteiros sociais, estuda as expressões verbais, pratica reações que parecem ‘normais’. No final do dia, você está completamente exausto, mas ninguém entende por quê.”
Potencialidades Reais, Sem Romantização
Mito 6: “Autistas não conseguem viver de forma independente”
Na minha trajetória, tive a vantagem de ver jovens autistas crescerem e construirem seus caminhos, cada um à sua maneira. Como Renato, que conheci aos 8 anos com desafios importantes de comunicação. Hoje, aos 23, ele mora em seu próprio apartamento, trabalha remotamente como designer gráfico e, embora preciso de certas adaptações, leva uma vida independente que seus pais não imaginavam ser possível.
“No início, dormitório com o telefone ao lado, aguardando ligações de emergência”, confessou sua mãe, Marina. “Hoje ele me liga para dar conselhos sobre como organizar meus arquivos digitais ou para me convidar para jantar em sua casa.”
A independência existe em diferentes graus para diferentes pessoas, autistas ou não. Algumas pessoas não precisam de apoio contínuo em certos aspectos da vida, enquanto serão completamente independentes em outros. Outras precisarão de muito pouco ou nenhum suporte.
O que determina esse potencial de independência não é apenas o autismo em si, mas também as oportunidades, os apoios adequados e um ambiente que respeite suas necessidades específicas.
Mito 7: “Todo autista tem alguma habilidade extraordinária”
Os filmes e séries de TV retratam pessoas autistas como gênios da matemática, música ou memória. Na vida real, algumas pessoas autistas realmente desenvolvem habilidades impressionantes em áreas específicas, mas isso está longe de ser uma regra.
“As pessoas ficam desapontadas quando descobrem que não sei calcular raízes quadradas de cabeça”, riu Leonardo, um jovem adulto com autismo, durante uma palestra que nos organizamos juntos. “Tenho facilidade com idiomas e já falo três, mas foi algo que desenvolvi com muito estudo e prática, como qualquer pessoa. Não acordei um dia falando japonês.”
Esta romantização cria expectativas irrealistas e desnecessárias. Cada pessoa autista, como qualquer ser humano, tem seus talentos e dificuldades próprias. Algumas têm habilidades extraordinárias, outras não – e isso é perfeitamente normal.
Construindo Pontes Reais
Mito 8: “A inclusão de pessoas autistas é prejudicial aos neurotípicos”
Em mais de 15 anos trabalhando com escolas inclusivas, tenho visto justamente o contrário. Quando feito com os suportes adequados, a verdadeira inclusão beneficia a todos, sem exceção.
Carla, professora há 22 anos, demonstrou comigo sua experiência: “Quando recebemos Miguel, um aluno autista não-verbal, em nossa turma, confesso que fiquei apreensiva. Hoje vejo como ele transformou nossa sala para melhor. As outras crianças desenvolveram uma sensibilidade impressionante, aprenderam formas alternativas de comunicação e, principalmente, entenderam que ser diferente é normal.”
A neurodiversidade enriquece todos os ambientes, das escolas às empresas. Pessoas autistas frequentemente trazem perspectivas únicas, atenção aos detalhes, honestidade e formas diferentes de resolver problemas.
Como me disse certa vez João, um empresário que contrata deliberadamente pessoas neurodiversas: “Não é caridade. É estratégia. Se todos na sua equipe pensam da mesma forma, você tem pontos cegos enormes. A diversidade neurológica nos trouxe soluções que nunca teriam sido encontradas de outra forma.”
Um Convite à Reflexão
Depois de quase duas décadas neste campo, minha maior lição foi aprender a escutar. Escutar verdadeiramente as pessoas autistas, suas experiências, suas necessidades, suas perspectivas. Tenho a impressão de que muitos dos mitos que persistem existem porque conversamos muito sobre autismo, mas ouvimos um pouco as pessoas autistas.
Quero deixar um convite sincero a você, leitor: na próxima vez que se deparar com alguma informação sobre autismo, pergunte-se: “Isso respeita a dignidade e a individualidade das pessoas autistas? Isso é baseado em evidências atuais ou em concepções ultrapassadas?”
O mundo que sonho construir não é aquele onde “toleramos” as diferenças – palavra que sempre me arrepios. Quem quer ser apenas tolerado? O mundo que procuramos é aquele onde celebramos a diversidade neurológica como parte natural e as potencialidades da experiência humana.
Como me disse Sofia, uma adolescente autista de 16 anos, em uma frase que carrega comigo: “Não quero um mundo feito para mim. Só quero um pedacinho de espaço num mundo onde todos possam ser quem realmente são.”
