Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

“Passei a vida me forçando a ser alguém que eu não era”: adultos descobrem TDAH e autismo após os 30 e enfrentam o o diagnóstico tardio

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Imagine passar décadas construindo meticulosamente uma persona. Um “eu” socialmente aceitável, funcional, que sorri na hora certa, que mantém o contato visual mesmo que isso queime por dentro, que entrega os trabalhos no prazo, ainda que à custa de noites em claro movidas a pânico e cafeína. Imagine o esforço colossal, a energia diária despendida para sustentar essa fachada, enquanto por dentro reside uma sensação constante de ser uma fraude, de estar sempre à beira de ser descoberto.

Agora, imagine que, aos 30, 40, 50 anos, uma palavra, um laudo, desmorona essa construção inteira: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ou, muitas vezes, ambos. Para um número crescente de adultos, o diagnóstico tardio não chega como uma sentença, mas como uma chave que abre a porta de uma vida inteira de inexplicáveis dificuldades. E ao abrir essa porta, o primeiro sentimento não é alívio, mas um luto profundo e complexo: o luto por si mesmo. O luto pela pessoa que eles poderiam ter sido se tivessem se conhecido antes.

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O Peso do “Masking”: A Exaustão de Ser um Ator em Tempo Integral

“Passei a vida me forçando a ser alguém que eu não era.” Esta frase, ou uma variação dela, ecoa em quase todos os relatórios de diagnóstico tardio. O fenômeno tem nome: masking, ou mascaramento. É o ato inconsciente ou semiconsciente de imitar comportamentos neurotípicos para esconder as próprias dificuldades e se encaixar. É forçar o foco em uma reunião, suprimir os movimentos repetitivos (stimming), ensaiar conversas no espelho, criar roteiros sociais para cada interação.

Para o mundo, a pessoa é apenas “tímida”, “um pouco ansiosa”, “avoada” ou, na pior das hipóteses, “preguiçosa” e “desinteressada”. Por dentro, a realidade é um estado de hipervigilância constante e exaustão crônica. “É como rodar um sistema operacional pesadíssimo em um computador que não tem memória para isso. Uma hora, o sistema trava”, descreve uma mulher de 38 anos, diagnosticada com TDAH e autismo há um ano, após uma vida inteira de diagnósticos de depressão e ansiedade generalizada. “O que os médicos chamavam de ‘burnout’ era, na verdade, o meu cérebro pedindo socorro por décadas de mascaramento.”

O Luto pela Pessoa Que Nunca Existiu

Quando o diagnóstico chega, ele ilumina o passado com uma luz cruel e, ao mesmo tempo, compassiva. Todas as oportunidades perdidas, as amizades que se foram por “esquecimento” ou por um comentário honesto demais, as carreiras abandonadas porque a estrutura do escritório era insuportável, as vezes em que se sentiu “burro” ou “incapaz” por não conseguir fazer o que parecia tão simples para os outros… tudo ganha um novo nome. E isso dói.

Surge o luto. Um luto multifacetado

Luto pelas dificuldades não amparadas: A raiva da infância e da adolescência vividas sem o apoio e as adaptações que poderiam ter tornado tudo mais fácil. “Eu não era uma aluna preguiçosa, eu só não conseguia me organizar. Por que ninguém viu?”, questiona-se.

Luto pelas conquistas sofridas: Um sentimento agridoce de olhar para o próprio sucesso — um diploma, uma promoção — e entender o preço exorbitante que foi pago em saúde mental para alcançá-lo.

Luto pela identidade construída: A persona cuidadosamente montada se revela uma máscara. E aí vem a pergunta aterrorizante: “Se eu não sou essa pessoa que eu fingi ser a vida inteira, então quem eu sou?”.

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Reconstruindo o “Eu” a Partir dos Escombros

O choque inicial e a fase mais intensa do luto, começa um processo lento e delicado de autodescoberta. É a primeira vez que muitos se dão a permissão de parar de lutar contra si mesmos e, em vez disso, começam a se acolher.

É o momento de desaprender. Desaprender a se forçar, a se punir pela procrastinação, a se odiar pela dificuldade social. É aprender a identificar as próprias necessidades: a necessidade de mais silêncio, de menos estímulos, de usar um fone de ouvido no supermercado, de dizer “não” a um evento social sem sentir culpa.

A descoberta tardia não é sobre encontrar uma desculpa, mas sobre encontrar um manual de instruções para um cérebro que funciona de maneira diferente. É, finalmente, entender por que você precisa de 10 alarmes para acordar, por que se sente mais produtivo de madrugada ou por que um abraço inesperado pode ser tão desregulador quanto um insulto. É trocar a autocrítica pela autocompaixão.

Questões que Ficam Após a Descoberta

1. O diagnóstico tardio invalida minhas outras lutas, como a ansiedade e a depressão?

De forma alguma. Na verdade, ele as contextualiza. A ansiedade e a depressão, para muitos neurodivergentes não diagnosticados, são consequências diretas de uma vida de inadequação e esforço extremo. A ansiedade de tentar prever cada cenário social, a depressão que vem da exaustão crônica e da sensação de fracasso. O diagnóstico de TDAH ou autismo não apaga esses sentimentos; ele explica a raiz de onde eles frequentemente brotam. Tratar a condição de base é o que, muitas vezes, finalmente permite que o tratamento para a ansiedade e a depressão funcione de forma eficaz.

2. Como lidar com a raiva e o ressentimento direcionados à minha família ou a médicos que não me diagnosticaram antes?

É fundamental permitir-se sentir essa raiva. Ela é uma parte legítima do processo de luto. Invalidar esse sentimento seria repetir o padrão de invalidação que causou tanto dano. Um bom acompanhamento terapêutico é crucial nesse momento para processar essa raiva de forma construtiva, entendendo que, há 20 ou 30 anos, o conhecimento sobre TDAH e autismo em adultos, especialmente em mulheres, era ínfimo. A raiva pode, então, se transformar em um motor para a auto-advocacia e para a busca por um futuro com mais autocompaixão.

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3. Eu preciso me “assumir” neurodivergente para todo mundo?

Não há obrigação. A decisão de com quem compartilhar seu diagnóstico é inteiramente sua. Para alguns, compartilhar com a família e amigos próximos é um passo libertador, que ajuda a reconstruir relações com base na honestidade e na compreensão mútua. No ambiente de trabalho, a decisão é mais complexa e depende da cultura da empresa e da segurança que você sente. O mais importante, no início, não é o rótulo externo, mas a sua própria aceitação interna.

4. E agora? O que eu faço com essa informação?

O primeiro passo é respirar fundo. O segundo é buscar profissionais — psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais — que sejam especializados em neurodivergência em adultos. Eles serão seus guias. O processo envolve aprender sobre seu próprio funcionamento, identificar suas necessidades e, aos poucos, começar a fazer pequenas mudanças na sua rotina e no seu ambiente para se adaptar a si mesmo, e não o contrário. É um convite para, talvez pela primeira vez na vida, construir uma existência que seja autêntica para você.

Conclusão: O Encontro Consigo Mesmo

O diagnóstico tardio de TDAH e autismo é uma ferida que se abre, expondo décadas de dor. Mas, como toda ferida que é finalmente limpa e tratada, ela pode começar a cicatrizar. O processo de lutar contra uma versão idealizada e neurotípica de si mesmo cede lugar a um encontro, muitas vezes tímido e desajeitado, com o “eu” real. Um eu que pode ser sensível, caótico, intenso, mas que é, acima de tudo, autêntico. O luto pela vida que poderia ter sido é, no fim das contas, o doloroso e necessário prelúdio para a liberdade de, finalmente, viver a vida que é sua de verdade.

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Doutor Bruno Oliveira

Me chamo Bruno Oliveira Paulo, sou médico Psiquiatra, e me formei em Medicina na UFU , tendo completado minha residência em Psiquiatria no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. Agradeço sua leitura. CRM 76733 | RQE 57735