Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

Você sabia que 70% das pessoas com bipolaridade pioraram na pandemia?

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A COVID-19 deixou marcas visíveis em UTIs no limite e hospitais improvisando leitos em corredores. Mas teve um estrago que ficou fora do foco — e talvez ainda esteja: o impacto brutal na saúde mental de quem já vivia em equilíbrio frágil.

Entre os mais afetados, estão os pacientes com transtorno bipolar. E não é exagero: o que era difícil antes da pandemia — conseguir atendimento, manter a rotina, tomar o remédio certo, na hora certa — virou um caos.

“O que era difícil antes, virou quase impossível”, resume o psiquiatra Bruno Ferreira, servidor do SUS há mais de vinte anos. “A pessoa com transtorno bipolar precisa de estabilidade. O que ela teve foi o oposto: isolamento, insegurança, falta de acesso ao médico e, em muitos casos, à medicação.”

Segundo o Ministério da Saúde, houve queda de até 80% nos atendimentos presenciais nos CAPS durante os meses de maior restrição. Em português claro: muita gente ficou sem assistência. E pagou caro por isso.

Uma condição que exige constância — e teve tudo menos isso

O transtorno bipolar não é “mau humor”. Não é frescura. É uma doença crônica, com episódios alternados de depressão profunda e euforia fora de controle (a chamada mania). O tratamento precisa ser contínuo. Estável. Sem isso, o risco de recaída é grande.

E durante a pandemia, tudo desandou.

Consultas canceladas. Receitas vencidas. Medicamentos em falta. Psiquiatras sobrecarregados ou afastados por COVID. Em muitos lugares, os CAPS simplesmente fecharam as portas.

“Teve paciente que ficou meses sem falar com um profissional. Meses. Tentava se virar com o que tinha”, conta Bruno. “Alguns recorreram a automedicação, outros… sumiram. A gente não sabe até hoje o que aconteceu com parte deles.”

Os dados existem. A resposta, nem tanto

Um estudo publicado na revista Psychiatry Research em 2022 ouviu 442 pessoas com transtorno bipolar no Brasil. Sete em cada dez disseram que os sintomas pioraram durante a pandemia. O número de surtos maníacos subiu. E as internações também.

Faltou atendimento. Mas não só.

Faltou plano. Faltou estratégia. Faltou comando.

De acordo com a OPAS, 60% dos países da América Latina relataram interrupção parcial ou total dos serviços de saúde mental em 2020 e 2021. No Brasil, não houve política pública sólida para lidar com a demanda represada.

“Houve muito improviso. Atendimento por telefone, mensagem de WhatsApp… o que dava pra fazer, a gente fazia”, conta Bruno. “Mas isso não é cuidado. Isso é emergência. É apagar incêndio com a mão.”

Um colapso invisível custa caro

Enquanto as manchetes falavam em número de mortes e ocupação de leitos, outro tipo de perda ia se acumulando: a perda de vínculos, de funcionalidade, de anos de estabilidade que foram embora de uma hora pra outra.

Em casos graves, o resultado foi hospitalização forçada. Em outros, rompimento familiar. Em alguns, suicídio.

“É uma bomba-relógio. Só que silenciosa”, diz Bruno. “A diferença é que, quando estoura, ninguém mostra na TV.”

O que ficou — e o que não veio

Em 2023, os atendimentos em saúde mental voltaram ao nível pré-pandemia em algumas regiões. Mas a conta chegou. E veio pesada.

Profissionais relatam que os casos agora são mais difíceis, mais crônicos, mais desorganizados. A pandemia não só interrompeu o tratamento — ela bagunçou tudo ao redor: moradia, renda, relações.

O governo federal anunciou aumento no orçamento da saúde mental. Só que, segundo entidades do setor, o valor está longe do necessário. O buraco é mais embaixo.

“A estrutura não acompanhou. A gente tem CAPS funcionando no limite, profissionais exaustos, e uma fila que não para de crescer”, afirma Bruno. “É como tentar esvaziar o mar com uma colher.”

O transtorno não parou. O sistema, sim.

A realidade é dura: o transtorno bipolar continua ali, afetando milhares de brasileiros. Mas o sistema de atenção a essas pessoas ainda está longe de se recompor.

Na teoria, o transtorno bipolar tem tratamento. Na prática, depende de um SUS funcionando — e isso, durante a pandemia, simplesmente não aconteceu.

Fontes consultadas

  • Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Relatório: A pandemia de COVID-19 e os serviços de saúde mental na América Latina, 2021.

  • Revista Psychiatry Research, vol. 308, 2022. “Mood symptoms during COVID-19 in bipolar patients: a multicenter Brazilian study”.

  • Ministério da Saúde. Painel de Indicadores de Saúde Mental, atualizado em 2023.

  • Entrevista com Dr. Bruno Ferreira, psiquiatra do SUS, concedida em junho de 2025.

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Doutor Bruno Oliveira

Me chamo Bruno Oliveira Paulo, sou médico Psiquiatra, e me formei em Medicina na UFU , tendo completado minha residência em Psiquiatria no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. Agradeço sua leitura. CRM 76733 | RQE 57735