Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

Adultos com diagnóstico tardio de autismo e TDAH: alívio, revolta e a sensação de uma vida não vivida

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Até poucos anos atrás, a ideia de um adulto ser diagnosticado com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou autismo parecia fora de lugar. Para muitos profissionais, esses eram transtornos que “ficavam na infância”. Mas a realidade bateu à porta dos consultórios — e também das redes sociais: milhares de brasileiros passaram a buscar diagnóstico já depois dos 30, 40 ou até 50 anos. O que encontram, quase sempre, é uma mistura de alívio, revolta e uma dolorosa sensação de vida interrompida.

“A gente não está falando de uma moda. Estamos falando de gente que passou décadas carregando culpa e rótulo de fracasso, quando na verdade estava lidando com um transtorno não reconhecido”, explica o psiquiatra Dr. Bruno Oliveira, especializado no atendimento de adultos com TDAH e transtornos do espectro autista (TEA).

Para muitos, o diagnóstico tardio é a primeira vez que alguém realmente escuta o que eles têm a dizer — e leva a sério.

Durante boa parte da vida, Renata se achava preguiçosa. Ou desorganizada. Ou “meio estranha”. Aos 41 anos, depois de um burnout no trabalho e uma insistência da terapeuta, veio a resposta que mudaria tudo: TDAH. O diagnóstico, embora tenha trazido alívio, também deixou um gosto amargo.

“Eu passei 40 anos tentando me encaixar, achando que tinha algo errado comigo. Quando descobri, senti raiva. Um misto de alívio com indignação. Porque ninguém percebeu antes?”

Histórias como a de Renata estão se multiplicando nos consultórios psiquiátricos. Adultos que, após décadas vivendo com um mal-estar indefinido, finalmente colocam nome nos sintomas. E essa onda de diagnósticos tardios não é moda — é correção de rota.

TDAH e TEA em adultos: o que os números (não) mostram

Apesar de o TDAH e o autismo (Transtorno do Espectro Autista) serem tradicionalmente associados à infância, cada vez mais adultos recebem esses diagnósticos. Em parte, porque o entendimento científico evoluiu. Em parte, porque a escuta clínica melhorou.

O psiquiatra Dr. Bruno Oliveira, que atua com adultos neurodivergentes, explica que o problema não era a ausência dos sintomas — era a falta de reconhecimento.

“A gente cresceu com uma visão caricata desses transtornos. Criança agitada? Deve ter TDAH. Menino que não fala? Pode ser autista. Mas e a mulher introspectiva, que vive no mundo dela? E o adulto que esquece compromissos e nunca termina nada? Esses passavam despercebidos.”

Hoje, há uma mudança de olhar. Mas ela veio tarde para muitos.

As armadilhas do diagnóstico tardio

Descobrir que se é neurodivergente aos 30, 40 ou até 50 anos não resolve a vida de ninguém — embora possa, sim, reorganizá-la. A novidade costuma vir acompanhada de um processo doloroso: o luto por tudo que poderia ter sido diferente.

“O mais difícil não foi o diagnóstico em si”, conta Gabriel, 36 anos, recém-diagnosticado com autismo. “Foi perceber que eu passei a vida toda me cobrando por não funcionar como os outros.”

Dr. Bruno é direto ao falar sobre isso:

“Não existe diagnóstico sem dor. Porque não é só descobrir o que você tem. É rever toda sua história pessoal. É lembrar das vezes em que foi taxado de ‘problemático’, ‘complicado’, ‘difícil’. Tudo isso volta.”

As mulheres (in)visíveis e os estereótipos que ainda valem

Boa parte dos adultos que descobrem TDAH ou TEA depois dos 30 são mulheres. Isso não é coincidência — é reflexo de uma medicina feita por e para homens.

“Durante muito tempo, os critérios diagnósticos foram baseados em comportamentos masculinos. Meninas autistas são quietas, não atrapalham ninguém. Meninas com TDAH não correm pela sala — elas esquecem tarefas, se distraem. Então ninguém percebe”, explica Dr. Bruno.

E, quando percebem, o rótulo é outro: preguiçosa, dramática, bagunceira. A ajuda não vem — o julgamento, sim.

Diagnóstico não é rótulo: é ferramenta

Se por um lado o diagnóstico traz o peso do passado, por outro ele também pode abrir caminhos. Entender-se como neurodivergente permite que o adulto busque formas reais de organizar sua rotina, melhorar seus relacionamentos e, sobretudo, parar de se cobrar por não ser “igual a todo mundo”.

“Eu comecei a adaptar meu dia a dia ao meu jeito de funcionar. Parar de me forçar a ser o que esperavam de mim foi libertador”, diz Renata.

Dr. Bruno reforça: o diagnóstico não é desculpa, é entendimento.

“Quando a pessoa se entende, ela consegue agir com mais clareza. Ajustar o ambiente, procurar tratamento, parar de se culpar. Isso muda tudo.”

Quando a internet ajuda — e quando atrapalha

Boa parte desses diagnósticos começa com um vídeo no TikTok ou um post no Instagram. Pessoas que se veem refletidas em relatos de outros adultos e decidem procurar ajuda. Mas o psiquiatra faz um alerta.

“Não dá pra se diagnosticar pelo celular. O que esses conteúdos fazem é acender um alerta. Mas o diagnóstico é clínico, técnico, criterioso. Não é só se identificar com uma lista de sintomas.”

A popularização da informação ajudou, sim, a tirar muitos do silêncio. Mas também abriu espaço para exageros e desinformação. Saber separar uma coisa da outra virou parte do desafio.

Ainda é difícil — principalmente para quem depende do SUS

Se os diagnósticos tardios estão crescendo, isso não significa que o acesso está fácil. Pelo contrário. No sistema público, a fila por um psiquiatra pode durar meses. E quando finalmente a consulta acontece, nem sempre há preparo para lidar com quadros menos “clássicos”.

“Teve médico que disse que autismo em adulto era invenção da internet”, conta Gabriel. “Saí da consulta pior do que entrei.”

Segundo Dr. Bruno, o preconceito dentro da própria área médica ainda é real:

“Tem profissional que acha que só criança pode ter TDAH. Ou que se o adulto chegou até aqui, é porque não tem nada. Isso é ignorância. E é cruel.”

Vida vivida — ou vida adiada?

Uma frase comum entre os adultos recém-diagnosticados é: “Agora tudo faz sentido”. Mas o que vem depois disso nem sempre é simples. Não há manual. Não há cura. Só o aprendizado — e a reconstrução.

“Eu ainda estou entendendo quem eu sou sem a culpa. Sem a máscara”, desabafa Renata.

O diagnóstico tardio não devolve o tempo. Mas oferece algo que talvez nunca tenha existido: um ponto de partida.

“Conhecer-se é um ato de coragem”, diz Dr. Bruno. “E, muitas vezes, é o que salva uma vida.”

Referências

  • DSM-5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, American Psychiatric Association, 2013.
  • CID-11 – Classificação Internacional de Doenças, Organização Mundial da Saúde, 2022.
  • Sociedade Brasileira de Psiquiatria – Diretrizes clínicas sobre TDAH e TEA em adultos.
  • Revista Brasileira de Psiquiatria – Estudos sobre diagnóstico tardio em população adulta (2023-2024).
  • Entrevista concedida por Dr. Bruno Oliveira, psiquiatra (julho de 2025).

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Doutor Bruno Oliveira

Me chamo Bruno Oliveira Paulo, sou médico Psiquiatra, e me formei em Medicina na UFU , tendo completado minha residência em Psiquiatria no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. Agradeço sua leitura. CRM 76733 | RQE 57735