A dependência em jogos de azar é frequentemente interpretada como simples descontrole ou falta de força de vontade. No entanto, a prática clínica mostra que, em muitos casos, esse comportamento compulsivo não surge isolado: está profundamente ligado a transtornos mentais, em especial ao transtorno afetivo bipolar.
A relação entre episódios de mania ou hipomania — caracterizados por euforia, impulsividade, menor necessidade de sono e aumento do comportamento de risco — e o envolvimento com apostas não é nova. Mas tem ganhado contornos alarmantes com o avanço dos cassinos online e a facilidade de acesso a plataformas de apostas.
Neste artigo, trago uma visão baseada na experiência clínica, dados recentes e o que realmente acontece dentro dos consultórios: pessoas que chegam arrasadas financeiramente e emocionalmente, tentando entender por que destruíram tanto em tão pouco tempo.
“Era só uma aposta. Agora é minha vida que está em jogo”
Ele entrou no consultório de cabeça baixa. Quase murmurando. Tinha 38 anos, era empresário, pai de dois filhos. E tinha perdido R$ 60 mil em apostas online. Dinheiro da empresa. Da casa.
“Começou com R$ 50 só pra brincar, né? Quando vi, tava três dias sem dormir, com quatro cartões estourados e a sensação de que se eu fizesse só mais uma aposta, ia virar o jogo. E claro, nunca virava”, me contou.
Esse tipo de relato, infelizmente, tem se tornado frequente. A aposta, nesse cenário, não é passatempo. Nem diversão. É um sintoma.
“O jogo aparece, muitas vezes, durante episódios de mania ou hipomania. A mente do paciente acelera, o senso crítico desaparece, e tudo parece fazer sentido, mesmo quando claramente não faz”, explica o psiquiatra Dr. Bruno Oliveira, com mais de dez anos de experiência no tratamento de transtornos do humor.
Cassino no bolso, 24 horas por dia
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“Isso piora tudo. É como deixar uma garrafa de uísque aberta na cabeceira de alguém em abstinência alcoólica. Se o sujeito tá em surto, ele aposta. Às vezes nem lembra que apostou”, diz o Dr. Bruno.
Os jogos são desenhados para capturar atenção. Cores chamativas, sons de vitória, promessas de bônus e ganhos fáceis. Só que, ao contrário do que vendem, a casa sempre ganha. Principalmente quando quem joga está em crise.
“Era como se eu estivesse invencível”
Uma paciente, 29 anos, professora, chegou ao consultório sem entender como gastou todo o limite do cartão em dois dias jogando roleta.
“Eu tava feliz, animada e acelerada. Fazia mil coisas ao mesmo tempo. Aí vi um anúncio, cliquei… e pronto. Comecei a jogar e, sei lá, eu sentia que ia dar certo. Como se eu soubesse os números que iam cair”, contou, tentando organizar a lembrança.
Esse tipo de pensamento mágico é típico da fase maníaca. A pessoa acredita, sinceramente, que está no controle, que é mais esperta, mais rápida, mais capaz. Não está.
“O transtorno bipolar distorce a percepção de risco. A pessoa não acha que está se colocando em perigo. Ela acredita que está prestes a fazer a melhor jogada da vida”, diz Dr. Bruno.
Diagnóstico tardio, prejuízo cedo
O mais comum é que esses pacientes só cheguem ao consultório depois da destruição: falência, briga familiar, casamento por um fio. E, mesmo assim, muitos ainda não têm o diagnóstico de bipolaridade.
“Tem gente que vem achando que é só viciado em jogo. Quando a gente vai investigar, descobre um histórico de fases de agitação, ideias mirabolantes, noites sem dormir e depois semanas de depressão. A aposta foi só a ponta do iceberg”, relata o psiquiatra.
Ou seja, o jogo não é a raiz. É o sintoma. Tratar só o jogo é como enxugar gelo.
E então… como tratar?
O tratamento precisa ser completo e contínuo. Começa com estabilização do humor — com medicamentos como estabilizadores, e às vezes antipsicóticos. E segue com psicoterapia.
“A gente tem que cuidar da impulsividade, trabalhar autoestima, ensinar o paciente a reconhecer sinais de que está entrando em crise. É reeducar o cérebro a voltar pro eixo”, explica Dr. Bruno.
Mas ele também é direto: não existe cura mágica. “Tem recaída, tem angústia, tem vergonha. Mas dá pra sair. Com apoio, responsabilidade e acompanhamento de verdade.”
Família e amigos também precisam aprender a sair do papel de juiz e entrar no de rede de apoio.
“Julgar só atrasa tudo. Quando a pessoa já perdeu tudo, o que ela menos precisa é de alguém dizendo: ‘Eu avisei’.”
Recomeçar é possível: mas não é sozinho
O jogo pode destruir muito. Mas não define ninguém.
“O que vejo, com frequência, são pessoas que passaram por tudo isso e conseguiram retomar a vida. Pagaram dívidas, reconstruíram relações, voltaram a confiar em si mesmas. Mas isso só acontece quando entendem que não é só parar de jogar — é tratar o transtorno por trás da aposta”, diz Dr. Bruno.
O caminho não é curto. Mas é real.
E, no fim das contas, reconhecer que aquele impulso não era escolha consciente já é um grande passo.
Referências clínicas e institucionais
- American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5), 5ª ed., 2013.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças – CID-11.
- Tavares, H. et al. (2016). “Transtorno do jogo patológico: da impulsividade à compulsão”. Revista Brasileira de Psiquiatria.
- Grant, J.E., & Potenza, M.N. (2010). Gambling and Other Behavioral Addictions. Cambridge University Press.
- Ministério da Saúde – Brasil. Diretrizes para o cuidado de pessoas com transtornos mentais e comportamentais, 2021.
