Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

“Tá todo mundo bipolar agora?” A explosão de diagnósticos e o que o Dr. Bruno Oliveira tem a dizer sobre isso

Psiquiatria,Psiquiatra,Saúde Mental
-Psiquiatra Uberlandia

Conteúdo

“Foi tipo… de uma hora pra outra. Uma semana eu tava bem, na outra me disseram que era bipolar. Fiquei sem chão.”

A frase é de Luana*, 27 anos, atendente de telemarketing em Belo Horizonte. Ela passou por quatro médicos diferentes em menos de um ano. O último, enfim, cravou: transtorno bipolar do tipo II. Recebeu a prescrição, o CID e um aviso: “vai ter que aprender a conviver com isso.”

Não é um caso isolado.

Nos últimos cinco anos, o número de diagnósticos de transtorno bipolar dobrou no Brasil, segundo estimativas cruzadas de planos de saúde e dados da Associação Brasileira de Psiquiatria. E, como era de se esperar, o assunto virou terreno fértil para teorias – das legítimas às duvidosas.

Tem gente dizendo que é “moda”. Outros falam em excesso de medicalização. E há quem culpe os algoritmos, os influenciadores de saúde mental e até os memes do TikTok.

Mas o psiquiatra Dr. Bruno Oliveira, com mais de 20 anos de experiência na área, vai direto ao ponto:

> “O que está acontecendo é um fenômeno misto. De um lado, sim, estamos identificando mais casos que antes passavam batido. Mas também há um excesso de rotulação em cima de sofrimento psíquico comum. Nem todo mundo que tem oscilação de humor é bipolar.”

Essa fronteira, cada vez mais borrada, é um dos motivos por trás do salto nos diagnósticos.

O que mudou?

O transtorno bipolar não é novidade. O que mudou foi o contexto.

Segundo o Dr. Bruno, a pandemia escancarou uma demanda reprimida por atendimento psiquiátrico. Gente que nunca pisou num consultório antes passou a procurar ajuda. Só que junto veio uma enxurrada de autodiagnóstico, com base em vídeos de 30 segundos nas redes sociais.

> “As pessoas chegam ao consultório dizendo: ‘Acho que sou bipolar porque vi um vídeo no Instagram e me identifiquei’. A psiquiatria virou um rótulo de acesso rápido para quem está tentando entender o que sente — o problema é quando isso vira diagnóstico sem critério”, explica ele.

E critério não falta: o diagnóstico de transtorno bipolar exige avaliação clínica cuidadosa, histórico detalhado, exclusão de outras condições médicas e, em muitos casos, acompanhamento ao longo de meses. Só que isso nem sempre acontece.

“Tem colega fazendo diagnóstico em 15 minutos”, lamenta o médico.

Mais rótulo, menos escuta

O aumento dos diagnósticos também revela um sistema de saúde mental sobrecarregado. Psicólogos e psiquiatras vivem com agendas lotadas. Muitos atendem 10, 12 pacientes por dia. Num ritmo assim, o rótulo é mais rápido do que o vínculo.

E isso tem consequências.

> “Se você diz pra alguém que ela tem transtorno bipolar, isso muda tudo. Ela passa a se ver assim, molda o comportamento a partir disso, e começa a tomar remédio pesado que, às vezes, nem precisava”, alerta o Dr. Bruno.

O problema é que, enquanto os diagnósticos sobem, os critérios continuam os mesmos. E a vida emocional das pessoas… bem, essa é mais caótica do que qualquer manual de psiquiatria consegue dar conta.

Afinal, o que é mesmo transtorno bipolar?

Nas palavras do Dr. Bruno, “bipolaridade é muito mais do que estar feliz de manhã e triste à tarde”.

É um transtorno do humor caracterizado por episódios bem definidos de depressão e mania (ou hipomania, em casos mais leves). Na mania, a pessoa pode ter euforia exagerada, pensamentos acelerados, gastos impulsivos, agitação, pouca necessidade de sono e comportamentos arriscados. Já na depressão, vem a apatia profunda, a lentidão, o desânimo total.

> “Oscilar é humano. Mas mania e depressão são estados extremos, que afetam a vida da pessoa de forma significativa. A banalização do termo faz parecer que qualquer instabilidade emocional é um transtorno bipolar, e isso é um erro grave”, reforça ele.

Diagnóstico ou válvula de escape?

Em tempos de burnout, inflação emocional e redes sociais vendendo felicidade instantânea, o sofrimento psíquico virou quase um padrão. E o diagnóstico, muitas vezes, surge como uma tentativa de dar sentido a isso.

Mas será que estamos tratando o problema ou apenas etiquetando o sintoma?

Dr. Bruno não é condescendente:

> “Tem muita gente que não precisa de um diagnóstico, precisa de escuta. Precisa reorganizar a vida, rever hábitos, sair de ambientes tóxicos. Só que isso é difícil, leva tempo, dói. Tomar um comprimido e dizer ‘sou bipolar’ parece mais fácil.”

Ele também faz um alerta sobre o uso indiscriminado de estabilizadores de humor. São medicamentos importantes, que salvam vidas quando bem indicados, mas que também têm efeitos colaterais sérios. “Não é suco verde. É remédio forte, e tem que ser tratado como tal”, afirma.

Onde isso vai parar?

Não há resposta fácil. A linha entre o diagnóstico legítimo e o excesso de medicalização é tênue. E no meio dela estão pessoas reais — como Luana — tentando entender por que a cabeça anda tão confusa.

O desafio, segundo o Dr. Bruno, é resgatar a complexidade do sofrimento humano sem cair na tentação de simplificá-lo com um código numérico.

> “A psiquiatria é uma ciência, sim. Mas também é arte. Tem que ouvir, sentir, acompanhar. Não dá pra transformar tudo em diagnóstico automático.”

Enquanto isso, nos consultórios, nos grupos do WhatsApp e nos vídeos de dancinha com legenda “eu bipolar”, a pergunta segue no ar:

Será que estamos mesmo mais doentes?

Ou será que só estamos — todos — tentando nomear um mal-estar que não cabe em uma receita azul?

Tags :

Psiquiatria,Psiquiatra,Saúde Mental

Compartilhe :

Picture of Doutor Bruno Oliveira

Doutor Bruno Oliveira

Me chamo Bruno Oliveira Paulo, sou médico Psiquiatra, e me formei em Medicina na UFU , tendo completado minha residência em Psiquiatria no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. Agradeço sua leitura. CRM 76733 | RQE 57735