Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

Burnout: Quando o Trabalho Consome a Alma

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-Psiquiatra Uberlandia
Ansiedade constante? Quando a preocupação deixa de ser normal e se torna um sinal de alerta

Era segunda-feira, 7h da manhã, e Rodrigo não conseguia sair da cama. Não por preguiça ou cansaço comum – era algo mais profundo. “Sentia como se tivesse uma tonelada em cima do peito”, conta o analista de sistemas de 34 anos. “Só de pensar em ligar o computador, já vinha uma angústia terrível.”

Rodrigo estava vivenciando o que milhões de brasileiros enfrentam silenciosamente: a síndrome de burnout, ou síndrome do esgotamento profissional. Um fenômeno que a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu oficialmente como doença ocupacional em 2019, mas que ainda é subestimado por muitas empresas e até pelos próprios trabalhadores.

Mais Que Cansaço: O Que É Burnout?

“Burnout não é simplesmente estar cansado do trabalho”, esclarece Dra. Campos, que estuda saúde mental ocupacional há 20 anos. “É um estado de exaustão física, emocional e mental causado por estresse crônico no ambiente de trabalho.”

A síndrome foi descrita pela primeira vez em 1974 pelo psicólogo Herbert Freudenberger. Ele usou o termo “burn out” – que significa “queimar por completo” – para descrever o que observava em profissionais da saúde que trabalhavam com dependentes químicos.

Segundo pesquisa da International Stress Management Association (ISMA-BR), 32% dos trabalhadores brasileiros sofrem de burnout. Os números são alarmantes, especialmente considerando que muitos casos não são diagnosticados ou são confundidos com depressão comum.

Os Três Pilares do Esgotamento

O burnout se manifesta através de três dimensões principais. A primeira é a exaustão emocional – aquela sensação de estar “sugado” pelo trabalho, sem energia para mais nada.

“Eu chegava em casa e não conseguia conversar com minha esposa”, relembra Paulo, gerente comercial de 42 anos. “Ficava ali no sofá, olhando pra televisão, mas sem processar nada. Era como se eu fosse um zumbi.”

A segunda dimensão é a despersonalização – um distanciamento emocional das pessoas no trabalho. Colegas, clientes e até a própria função viram apenas números, perdendo o significado humano.

“Comecei a tratar meus pacientes como ‘casos'”, conta Sandra, enfermeira há 15 anos. “Aquilo que sempre amei fazer – cuidar de pessoas – virou mecânico, frio. Era terrível.”

A terceira é a baixa realização pessoal no trabalho. A pessoa sente que não está fazendo diferença, que seu trabalho não tem propósito ou valor.

Sinais de Alerta

O burnout não aparece do dia pra noite. É um processo gradual que muitas vezes passa despercebido. Os primeiros sinais incluem cansaço constante, dificuldade de concentração, irritabilidade, problemas de sono e queda na produtividade.

“O que mais me chama atenção é quando o paciente fala que perdeu o prazer no trabalho”, observa a psicóloga organizacional Dra. Fernanda Alves. “Especialmente quando era algo que gostava de fazer.”

Outros sintomas físicos podem aparecer: dores de cabeça frequentes, problemas gastrointestinais, tensão muscular, alterações no apetite. “O corpo fala quando a mente não consegue processar o estresse”, explica Dra. Campos.

Carla, jornalista de 38 anos, começou a ter crises de choro no trabalho. “Eu chorava no banheiro, no elevador, às vezes até na frente dos colegas. Não conseguia mais controlar.”

O Perfil do Burnout

Embora possa afetar qualquer profissional, algumas características tornam a pessoa mais vulnerável. Perfeccionistas, workaholics, pessoas com alta autocobrança e dificuldade para dizer “não” estão no grupo de risco.

“Vejo muito paciente que tem dificuldade para estabelecer limites”, comenta Dra. Alves. “São pessoas que aceitam tudo, trabalham nos finais de semana, respondem e-mail de madrugada…”

Profissões que envolvem cuidado com outras pessoas – médicos, enfermeiros, professores, assistentes sociais – também apresentam maior incidência. Segundo dados do Conselho Federal de Medicina, 23% dos médicos brasileiros apresentam sinais de burnout.

O Ambiente Tóxico

Não é só questão individual. O ambiente organizacional tem papel fundamental no desenvolvimento do burnout. Sobrecarga de trabalho, falta de autonomia, reconhecimento insuficiente, conflitos interpessoais e falta de suporte da chefia são fatores decisivos.

“Empresa que não investe em saúde mental está cavando a própria cova”, alerta Dra. Campos. “Funcionário com burnout produz menos, falta mais, comete mais erros…”

Dados da Organização Internacional do Trabalho mostram que cada dólar investido em saúde mental no trabalho retorna 4 dólares em produtividade. Mas muitas empresas ainda veem isso como “gasto desnecessário”.

Marina, ex-publicitária, trabalhava numa agência onde fazer hora extra era “normal”. “Todo mundo ficava até tarde, trabalhava sábado, levava coisa pra casa. Quem saía no horário era mal visto. Era uma competição doentia.”

A Pandemia e o Home Office

A pandemia de COVID-19 intensificou os casos de burnout. O home office, que deveria ser uma flexibilidade, virou armadilha para muitos profissionais. Sem fronteiras claras entre casa e trabalho, muita gente passou a trabalhar mais, não menos.

“O home office pode ser maravilhoso, mas precisa de limites”, observa Dra. Alves. “Quando a mesa de jantar vira escritório e o quarto vira sala de reunião, perdemos os rituais de desconexão.”

Pesquisa da FGV mostrou que 41% dos trabalhadores em home office relataram aumento do estresse durante a pandemia. “Eu trabalhava de pijama, mas trabalhava 12 horas por dia”, conta Rodrigo. “Não tinha mais horário pra nada.”

O Diagnóstico Que Liberta

Receber o diagnóstico de burnout pode ser libertador. Muitas pessoas se sentem culpadas por não conseguir “dar conta” do trabalho, achando que é “falta de capacidade” ou “fraqueza”.

“Quando o médico falou que eu tinha burnout, foi um alívio”, lembra Paulo. “Finalmente tinha nome pro que eu estava sentindo. Não era frescura, era doença.”

O diagnóstico é clínico, baseado na avaliação dos sintomas e da história ocupacional. Questionários específicos como o Maslach Burnout Inventory ajudam na identificação. “É importante diferençar de depressão comum”, explica Dra. Campos. “No burnout, os sintomas estão diretamente relacionados ao trabalho.”

Tratamento: Não É Só Descansar

O tratamento do burnout vai além do descanso. Psicoterapia, especialmente a cognitivo-comportamental, ajuda a desenvolver estratégias de enfrentamento e a reestruturar pensamentos disfuncionais sobre trabalho.

“Muitos pacientes têm crenças limitantes sobre trabalho”, observa Dra. Alves. “‘Tenho que ser perfeito’, ‘não posso falhar’, ‘se não trabalhar demais, vou ser demitido’… Trabalhamos essas distorções.”

Medicação pode ser necessária em casos mais graves, especialmente quando há sintomas depressivos ou ansiosos associados. “Não é dependência, é tratamento médico”, esclarece Dra. Campos.

Mudanças no estilo de vida são fundamentais: exercícios físicos, alimentação adequada, sono regular, atividades prazerosas fora do trabalho. “O burnout acontece quando a vida vira só trabalho”, resume a psiquiatra.

Prevenção: Antes Que Seja Tarde

Prevenir burnout é responsabilidade individual e organizacional. No nível pessoal, significa estabelecer limites claros, aprender a dizer não, cultivar hobbies e relacionamentos fora do trabalho.

“Eu aprendi que não preciso responder e-mail às 11 da noite”, conta Carla, que está em recuperação há dois anos. “Aprendi que posso ser boa profissional sem me matar de trabalhar.”

As empresas também têm papel crucial. Políticas de saúde mental, programas de qualidade de vida, gestão humanizada, reconhecimento do trabalho, flexibilidade de horários… são investimentos que se pagam.

“Empresa que cuida da saúde mental dos funcionários tem menos rotatividade, menos atestados, mais produtividade”, enfatiza Dra. Campos. “É matemática simples.”

Voltando à Vida

A recuperação do burnout é possível, mas leva tempo. “Não é como gripe que toma remédio e passa”, alerta Dra. Alves. “É processo que pode levar meses, às vezes anos.”

Sandra mudou de setor no hospital e hoje trabalha na educação continuada. “Voltei a gostar da minha profissão. Descobri que o problema não era ser enfermeira, era onde eu trabalhava.”

Paulo saiu da empresa e montou uma consultoria própria. “Trabalho menos horas, ganho menos dinheiro, mas durmo tranquilo. Qualidade de vida não tem preço.”

Sinais de Esperança

Felizmente, a conscientização sobre burnout está aumentando. Empresas começam a investir em saúde mental, profissionais se permitem buscar ajuda, a sociedade discute mais o tema.

“Vejo mudança de mentalidade, especialmente entre os mais jovens”, observa Dra. Campos. “Eles valorizam mais o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.”

A geração Z, especialmente, questiona a cultura do “sempre disponível” e busca trabalhos com propósito e flexibilidade. “Isso pressiona as empresas a repensarem suas práticas”, comenta Dra. Alves.

Uma Nova Relação com o Trabalho

O burnout pode ser uma oportunidade de repensar a relação com o trabalho. “Muitos pacientes falam que foi o melhor pior momento da vida”, observa Dra. Campos. “Porque os forçou a reavaliar prioridades.”

Rodrigo voltou a trabalhar há um ano, numa empresa diferente. “Aprendi que trabalho é importante, mas não é tudo. Hoje faço terapia, pratico esporte, tenho tempo pra família. Sou mais feliz e, ironicamente, mais produtivo.”

O burnout é um problema sério que afeta milhões de brasileiros. Mas é também um sintoma de que algo precisa mudar – na forma como trabalhamos, como as empresas tratam os funcionários, como a sociedade valoriza o trabalho em detrimento da vida.

Reconhecer os sinais, buscar ajuda e promover mudanças é responsabilidade de todos. Afinal, trabalho deveria ser meio de realização, não de adoecimento. É possível – e necessário – construir um futuro onde trabalhar não signifique se consumir por completo.

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Doutor Bruno Oliveira

Me chamo Bruno Oliveira Paulo, sou médico Psiquiatra, e me formei em Medicina na UFU , tendo completado minha residência em Psiquiatria no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. Agradeço sua leitura. CRM 76733 | RQE 57735