“Doutor, eu tenho TDAH. Vi um vídeo e me identifiquei com tudo.”
Essa frase, que há alguns anos aparecia eventualmente no consultório, hoje se tornou corriqueira.
Pessoas chegam com uma convicção formada, muitas vezes sem nunca terem passado por uma avaliação clínica. A fonte? Reels, TikTok, threads no X, vídeos no YouTube. O conteúdo é rápido, visualmente atrativo e envolvente. E, acima de tudo, fornece algo que muitos estão buscando: uma explicação imediata para um mal-estar difuso, uma sensação persistente de inadequação, cansaço ou baixa produtividade.
O fenômeno do autodiagnóstico via redes sociais não é exatamente novo — mas se tornou exponencial nos últimos dois anos. E, na prática clínica, já tem produzido efeitos concretos: atrasos no diagnóstico correto, uso inadequado de medicamentos e, em muitos casos, uma ansiedade ainda maior.
O diagnóstico em 30 segundos
Basta uma rápida rolagem pelas redes para encontrar vídeos com frases como:
“Você se distrai com facilidade?”
“Procrastina sempre, mesmo com tarefas simples?”
“Se sente desorganizado e vive perdendo objetos?”
As perguntas são vagas, muitas vezes aplicáveis a qualquer pessoa sob estresse ou sobrecarga. Mas para quem está buscando explicações — ou apenas tentando dar sentido ao próprio sofrimento — são quase irresistíveis.
O resultado? Um número crescente de adultos e jovens chega ao consultório já convencido de que tem TDAH, transtorno do espectro autista (TEA), ansiedade generalizada, bipolaridade. Tudo ao mesmo tempo.
Na prática, o trabalho clínico se torna duplo: avaliar o quadro real e, ao mesmo tempo, desconstruir rótulos apressados.
Informação sem filtro: quando o excesso confunde
É importante dizer: a disseminação de conteúdos sobre saúde mental tem méritos. Ampliou o debate, reduziu estigmas, trouxe temas antes ignorados para o centro da conversa pública. O problema é quando a popularização não vem acompanhada de responsabilidade.
Plataformas digitais, por sua natureza, favorecem o conteúdo rápido, emocional e de fácil identificação. Mas transtornos mentais são, quase sempre, complexos. Requerem avaliação detalhada, contexto familiar, histórico de vida, exclusão de outros diagnósticos diferenciais.
“Eu procrastino, tenho insônia e dificuldade de concentração.” Essa tríade, comum entre jovens adultos, pode ser causada por TDAH — ou por ansiedade crônica, depressão, burnout, luto não elaborado, traumas infantis. Ignorar essas possibilidades e concluir, com base em vídeos, que se trata de um transtorno neurobiológico é um atalho perigoso.
A medicalização como consequência
O passo seguinte ao autodiagnóstico, em muitos casos, é a busca por medicação. Não é raro pacientes pedirem, na primeira consulta, por estimulantes como metilfenidato ou lisdexanfetamina — já com nomes comerciais decorados. Muitos relatam conhecer alguém que toma, já “pesquisaram tudo” e se sentem prontos para iniciar o tratamento.
Mas o uso indevido de psicotrópicos, sem diagnóstico confirmado, traz riscos reais: insônia grave, irritabilidade, crises de ansiedade, perda de apetite, aumento de pressão arterial. Além disso, pode mascarar o transtorno verdadeiro — retardando o tratamento adequado.
Hoje, há um número preocupante de pessoas adultas usando estimulantes sem acompanhamento contínuo, muitas vezes com receitas antigas ou compartilhadas. E há, também, uma crescente frustração de quem acreditava que a medicação traria alívio imediato, mas não obteve o resultado esperado.
O que as pessoas estão buscando?
O autodiagnóstico, no fundo, não é um problema de vaidade nem de ignorância. É um reflexo de um mal-estar contemporâneo. Pessoas estão sobrecarregadas, vivendo sob constante cobrança, imersas em estímulos digitais e lidando com um modelo de produtividade exaustivo. Sentir-se “desfocado”, “lento” ou “desorganizado” virou quase normal — especialmente entre jovens adultos.
O diagnóstico, nesse contexto, aparece como uma forma de validação. Ele oferece um nome, uma explicação, uma justificativa para o sofrimento. E, muitas vezes, traz alívio. “Pensei que era preguiça ou falta de vontade. Descobrir que era TDAH me deu paz”, relatou uma paciente de 23 anos. O problema é quando esse alívio se apoia em bases frágeis — e não se sustenta ao longo do tempo.
O papel do profissional diante do caos informacional
Diante desse cenário, o trabalho do psiquiatra se torna mais complexo — mas também mais necessário. Ouvir com atenção, avaliar com profundidade, considerar a história individual de cada paciente e, acima de tudo, educar. É preciso explicar que diagnóstico não é um rótulo que se escolhe, mas um processo cuidadoso de exclusão, análise e compreensão.
É igualmente importante combater o discurso reducionista das redes. Transtornos mentais não se resumem a dois ou três comportamentos isolados. E diagnóstico não se faz por semelhança emocional, mas por critérios clínicos validados.
O que fazer, então?
O caminho é mais lento — mas é mais seguro.
Buscar fontes confiáveis. Procurar profissionais qualificados. Desconfiar de soluções mágicas ou de conteúdo que parece “acertar tudo” com poucas palavras. E lembrar que saúde mental é terreno sensível demais para ser decidido por algoritmo.
As redes sociais podem — e devem — ser aliadas na conscientização. Mas jamais substitutas do cuidado real.
Se há algo que aprendi nos últimos anos é que a pressa, nesse campo, costuma cobrar um preço alto. Entender quem somos, o que sentimos e do que realmente precisamos não cabe num vídeo de 30 segundos.
E nem deveria.
