Confesso que demorei para perceber que algo estava errado. Como psicóloga clínica, eu orientava pacientes sobre ansiedade há anos, mas quando ela bateu à minha porta, o reconhecimento não foi imediato. Foi numa terça-feira comum, no trânsito a caminho do consultório, que meu coração disparou sem motivo aparente. O ar faltou. As mãos gelaram. Um suor frio escorreu pela minha testa enquanto pensamentos catastróficos invadiam minha mente. “Estou tendo um ataque cardíaco”, pensei.
Não estava. Era meu corpo gritando que a ansiedade havia cruzado a linha do normal para o patológico.
Essa experiência me fez mergulhar ainda mais fundo no estudo desse fenômeno que, segundo a OMS, afeta mais de 264 milhões de pessoas no mundo. Quero compartilhar com você o que aprendi nessa jornada pessoal e profissional sobre a linha tênue entre a ansiedade que nos protege e aquela que nos paralisa.
A ansiedade que nos protege
“Se nossos ancestrais não sentissem ansiedade diante de um predador, não estaríamos aqui hoje”, costuma dizer meu colega neurologista, Dr. Roberto Maia, durante nossas palestras conjuntas. É verdade. Aquele friozinho na barriga antes de uma apresentação importante, a inquietação ao esperar o resultado de um exame médico, a preocupação com os filhos – tudo isso faz parte do sistema de alarme natural do nosso corpo.
Mariana, 36 anos, gerente de projetos, me contou recentemente: “Aquela pontinha de ansiedade me faz chegar no horário em reuniões, verificar três vezes os dados de uma apresentação e me preparar para perguntas difíceis. Sei que sem esse impulso, eu não daria o meu melhor.”
Essa ansiedade “amiga” tem algumas características bem definidas:
- Aparece em momentos específicos e depois vai embora
- Nos ajuda a nos preparar e agir
- Não domina nossos pensamentos dia e noite
- É proporcional à situação que estamos enfrentando
- Nos deixa alertas, não paralisados
Quando a protetora vira algoz
Carlos chegou ao meu consultório após três meses de licença médica. Professor universitário brilhante, com 47 anos e uma carreira consolidada, ele agora mal conseguia sair de casa. “Comecei checando se o fogão estava desligado antes de sair. Normal, certo? Mas logo estava voltando para casa cinco, seis vezes. Chegava atrasado nas aulas, suando, com o coração na boca. Um dia, simplesmente não consegui mais sair do quarto.”
O caso de Carlos ilustra como a transição da ansiedade normal para a patológica geralmente é gradual. É como uma chuva fina que, sem você perceber, acaba virando tempestade.
Trabalho com saúde mental há 15 anos e tenho observado um aumento significativo nos casos de transtornos ansiosos. A pandemia, as incertezas econômicas, a hiperconexão digital – vivemos em uma era que parece projetada para nos deixar em estado de alerta constante.
Os sinais que seu corpo e mente estão mandando
Nosso corpo é sábio e nos envia recados quando algo não vai bem. Aprendi a ouvir esses sinais na minha própria jornada e agora ajudo meus pacientes a reconhecê-los. Preste atenção se você:
- Vive em estado de alerta: “É como se eu nunca desligasse”, desabafou Teresa, contadora de 42 anos. “Até quando estou vendo um filme, uma parte do meu cérebro está preocupada com algo que pode dar errado amanhã.”
- Sente seu corpo tenso constantemente: Dores no pescoço, nos ombros, dores de cabeça frequentes, ranger de dentes durante o sono.
- Tem problemas digestivos sem causa aparente: Renato, empresário de 39 anos, passou por três gastroenterologistas antes de entender que seu intestino irritável estava intimamente conectado à sua ansiedade.
- Não consegue desligar à noite: “Deito exausta, mas minha mente parece uma TV ligada em um canal de desastres”, relatou Ana Paula, designer de 31 anos.
- Evita situações por medo: Felipe deixou de ir a reuniões de família porque a ansiedade de interagir com muitas pessoas se tornou insuportável.
- Tem pensamentos catastróficos recorrentes: “Se meu chefe quer falar comigo, só pode ser para me demitir”; “Esse sintoma deve ser uma doença grave”; “Meu filho está atrasado, deve ter sofrido um acidente.”
- Percebe impacto na sua performance: Tarefas que antes eram simples agora parecem montanhas impossíveis de escalar.
- Depende de “muletas”: Álcool, medicamentos sem prescrição, maratona de séries ou outras formas de escape se tornaram necessárias para enfrentar o dia a dia.
Patrícia, enfermeira de 44 anos, me disse em uma sessão: “Quando percebi que estava contando os passos até o metrô e entrando em pânico se alguém interrompesse minha contagem, entendi que precisava de ajuda. Aquilo não era mais eu sendo ‘detalhista’ – era algo tomando conta da minha vida.”
Os rostos da ansiedade
A ansiedade patológica usa muitas máscaras. Em 15 anos de consultório, conheci diversas delas:
Ansiedade generalizada: Luiza, professora de 38 anos, descreve: “É como ter um rádio de preocupações ligado na minha cabeça 24h por dia. Meu filho vai se machucar na escola? Vou ser demitida? Meus pais estão bem de saúde? O mundo vai acabar? É exaustivo.”
Pânico: “Achei que estava morrendo”, conta Marcelo, advogado de 42 anos, sobre sua primeira crise. “Meu coração disparou tanto que doía. Não conseguia respirar. As pontas dos meus dedos formigavam. Corri para o hospital achando que era um ataque cardíaco.”
Fobia social: “Prefiro ficar com fome a pedir comida pelo telefone”, admitiu Juliana, estudante de 23 anos. “A ideia de falar com estranhos, mesmo para coisas simples como pedir informações na rua, me deixa em pânico.”
TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo): Roberto, contador de 35 anos, lava as mãos até sangrarem. “Sei que é irracional, mas se não lavar exatamente sete vezes, tenho certeza que algo terrível vai acontecer com minha família.”
TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático): Laura sobreviveu a um assalto à mão armada. Dois anos depois, ainda não consegue entrar em agências bancárias. “Meu corpo inteiro treme. Volto a sentir o cano do revólver na minha cabeça.”
Fobias específicas: “Tenho que planejar viagens inteiras para evitar elevadores”, explica Cláudio, engenheiro de 51 anos. “Já perdi oportunidades de emprego por não conseguir subir além do terceiro andar de escada.”
Cada pessoa tem sua história única, mas todas compartilham o sofrimento de uma mente que não consegue descansar.
Por que comigo?
“Por que eu? Sempre fui tão equilibrada!”, questionou Marina, executiva de 41 anos, quando recebeu seu diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Generalizada.
A resposta nunca é simples. Na maioria dos casos, estamos falando de uma tempestade perfeita:
Sua história genética: “Minha mãe sempre foi ansiosa, minha avó também”, é algo que escuto frequentemente no consultório. Estudos com gêmeos mostram que cerca de 30-40% da predisposição aos transtornos ansiosos tem componente hereditário.
Sua química cerebral: Neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e GABA desempenham papéis cruciais na regulação da ansiedade. Desequilíbrios nessa química podem deixar algumas pessoas mais vulneráveis.
Sua história de vida: Eventos traumáticos, mesmo aqueles que parecem superados, podem sensibilizar nosso “sistema de alarme”. Eduardo, bombeiro de 39 anos, desenvolveu um transtorno de ansiedade após resgatar vítimas de um desabamento.
Seus pensamentos habituais: Algumas pessoas desenvolvem padrões de pensamento que alimentam a ansiedade. “Se algo pode dar errado, vai dar errado e vai ser catastrófico” é um mantra inconsciente para muitos ansiosos.
O mundo ao seu redor: Pressões sociais, competitividade extrema no trabalho, instabilidade econômica, exposição constante a notícias negativas – nosso ambiente moderno parece projetado para nos deixar ansiosos.
Como explico aos meus pacientes: não é sua culpa. Assim como não culpamos alguém por desenvolver diabetes, não devemos nos culpar por desenvolver um transtorno de ansiedade.
Encontrando caminhos de volta à calma
Lembro-me da expressão de alívio no rosto de Paulo, executivo de 46 anos, quando expliquei que seu transtorno tinha tratamento. “Pensei que estivesse enlouquecendo ou que teria que viver assim para sempre”, confessou.
A boa notícia é que os transtornos de ansiedade estão entre as condições psiquiátricas mais tratáveis. Cada caso é único, mas algumas abordagens têm demonstrado resultados consistentes:
Psicoterapia: A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) ajuda a identificar e modificar padrões de pensamento que alimentam a ansiedade. “Aprendi a questionar meus pensamentos catastróficos”, conta Fernanda, jornalista de 37 anos. “Quando penso ‘vou ser demitida’, agora pergunto: ‘qual a evidência real disso?’ e ‘já pensei isso antes e não aconteceu?'”
Medicamentos: Em casos moderados a graves, o suporte farmacológico pode ser fundamental. “O remédio não resolveu tudo, mas baixou o volume da ansiedade o suficiente para eu conseguir usar as técnicas que aprendi na terapia”, explica Maurício, engenheiro de 43 anos. Antidepressivos (especialmente os ISRSs) e, em casos específicos, ansiolíticos, são prescritos por psiquiatras após avaliação individualizada.
Mudanças no estilo de vida: “Nunca acreditei que exercícios físicos pudessem impactar tanto minha ansiedade até começar a correr três vezes por semana”, conta Denise, advogada de 39 anos. Estudos mostram que exercícios regulares podem reduzir sintomas ansiosos em até 50%. Alimentação balanceada, técnicas de respiração, meditação e sono adequado também fazem parte do tratamento.
Reconexão social: A ansiedade frequentemente nos isola, mas o contato social de qualidade é um poderoso ansiolítico natural. Grupos de apoio, onde se pode compartilhar experiências com pessoas que enfrentam desafios semelhantes, têm resultados surpreendentes.
Exposição gradual: Para fobias específicas e ansiedade social, enfrentar gradualmente as situações temidas, com apoio adequado, ajuda a recalibrar o sistema de alarme do cérebro.
Helena, professora de 41 anos, resume sua jornada: “Foi um caminho com altos e baixos. Comecei com medicação porque estava num ponto crítico, paralelo à terapia semanal. Descobri o poder da meditação diária, mesmo que por apenas 10 minutos. Cortei cafeína e melhorei meu sono. Hoje, dois anos depois, ainda tenho dias ruins, mas são exceção, não regra. A ansiedade não define mais quem eu sou ou o que posso fazer.”
Práticas diárias que fazem diferença
Peço aos meus pacientes que incorporem pequenas práticas ao seu dia a dia. Simples, mas poderosas:
Respire consciente: “Três respirações profundas antes de reuniões difíceis mudaram minha vida profissional”, conta André, gerente de 38 anos. A respiração diafragmática (abdominal) lenta ativa nosso sistema parassimpático, responsável pelo estado de calma.
Mova-se: Não precisa ser uma maratona. Caminhadas de 30 minutos, cinco vezes por semana, já produzem efeitos significativos na redução da ansiedade.
Reveja seus estimulantes: Cafeína, nicotina e álcool podem piorar sintomas ansiosos. “Trocar o café da tarde por chá de camomila reduziu minhas palpitações em 70%”, percebeu Sandra, contadora de 45 anos.
Crie um ritual de sono: A insônia alimenta a ansiedade que, por sua vez, piora a insônia. Horários regulares e uma “hora de desligar” antes de dormir fazem diferença significativa.
Cuide da sua alimentação: Carla, nutricionista e minha colaboradora em grupos terapêuticos, sempre lembra: “Um intestino saudável se comunica melhor com seu cérebro.” Uma dieta rica em vegetais, proteínas magras e gorduras boas favorece a produção de neurotransmissores que promovem bem-estar.
Pratique atenção plena: “Percebi que vivia constantemente no futuro, preocupada com coisas que ainda nem aconteceram”, conta Marisa, arquiteta de 37 anos. “Aprender a focar no momento presente foi como ganhar minha vida de volta.”
Limite o consumo de notícias e redes sociais: Experimentamos mais informação em um dia do que nossos avós em um ano inteiro. Isso sobrecarrega nosso sistema de alerta. Defina horários específicos para se informar e evite começar e terminar o dia checando notícias.
Faça da gratidão um hábito: Estudos mostram que focar em aspectos positivos da vida, mesmo em momentos difíceis, ajuda a regular nossas emoções. “Comecei listando três coisas boas no fim do dia, por menores que fossem. Foi estranho no início, mas mudou completamente minha perspectiva com o tempo”, relata Guilherme, professor de 44 anos.
Quando e onde buscar ajuda
“Demorei dois anos para buscar ajuda porque achava que era ‘frescura’ ou ‘fraqueza'”, confessa Ricardo, empresário de 50 anos. “Esses dois anos custaram muito para minha saúde e meus relacionamentos.”
Se você se identificou com os sinais mencionados e eles persistem por semanas afetando sua qualidade de vida, é hora de buscar apoio profissional:
- Psicólogos e psiquiatras: Profissionais especializados em saúde mental podem fazer avaliações completas e propor tratamentos adequados.
- Clínicas-escola de universidades: Oferecem atendimento psicológico supervisionado a preços acessíveis.
- CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): Unidades públicas especializadas em saúde mental.
- UBS (Unidades Básicas de Saúde): Podem fazer o primeiro acolhimento e encaminhamento.
- Grupos de apoio: Existem diversas iniciativas presenciais e virtuais onde pessoas compartilham experiências e estratégias.
- Aplicativos de bem-estar mental: Alguns oferecem técnicas de respiração, meditação guiada e outras ferramentas úteis para momentos de crise.
- Linhas de apoio emocional: Como o CVV (Centro de Valorização da Vida) pelo telefone 188, disponível 24h para acolhimento.
Lembre-se: assim como não hesitaríamos em procurar ajuda para uma perna quebrada, não devemos hesitar quando nossa saúde mental precisa de cuidado.
Um novo olhar para a ansiedade
Por anos, escutei Marta, bibliotecária de 56 anos, contar sobre seu “lado fraco”, sua “personalidade nervosa” e como ela “nasceu assim e vai morrer assim”. No nosso último encontro, após meses de tratamento, ela me disse algo que guardo com carinho: “Percebi que a ansiedade não sou eu. É algo que tenho, não algo que sou.”
Esta é talvez a lição mais importante que quero deixar: transtornos de ansiedade são condições médicas reais, com bases neurobiológicas identificáveis, e não falhas de caráter ou fraqueza de espírito.
Com o suporte adequado – seja terapia, medicação, mudanças no estilo de vida ou uma combinação destes – a maioria das pessoas consegue recuperar o controle sobre sua saúde mental e redescobrir uma vida que não é dominada pelo medo e pela preocupação constante.
Como bem resumiu o Dr. Antonio Egidio Nardi, professor titular de Psiquiatria da UFRJ: “A ansiedade patológica não é uma sentença perpétua. Com as abordagens corretas, cerca de 70% das pessoas apresentam melhora significativa e recuperam sua qualidade de vida.”
Se você está nessa jornada, saiba que não está sozinho. E que sim, é possível encontrar o caminho de volta à tranquilidade.
